domingo, 21 de junho de 2009

Antigos cinemas de rua podem ser reabertos

Projeto prevê a reabertura de antigas salas e resgatar parte do centro da capital
Reportagem feita para a matéria Revisão e Redação em Jornalismo.
Avenida São João, 1462. Neste endereço funcionava aquele que é tido por muitos como o melhor e mais incrível cinema de rua da cidade. Um pouco distante da esquina imortalizada na canção, o Comodoro foi um dos símbolos da efervescência que vivia o centro, entre as décadas de 1960 e 1980. Nele, era possível assistir os melhores filmes em um sistema de som considerado o mais moderno entre seus pares: o Dolby Stereo Surround. Logo em frente, ficava o Cinespacial, com suas três telas (uma em frente e outras duas, uma de cada lado) exibindo o mesmo filme, simultaneamente. Sem contar o Cine Ipiranga, o charmoso Marrocos, o Marabá, o Olido, entre muitos outros.

Com a degradação da região central, muitas destas salas viraram igrejas evangélicas, estacionamentos ou exibem shows de strip-tease e filmes de sexo explícito. Ou, simplesmente, fecharam. Como é o caso do Comodoro. O jornaleiro Manoel Brandão,foi freqüentador assíduo. Ele conta, com muito saudosismo e uma certa emoção na voz, os filmes que assistiu ali. “O Comodoro era o que passava as melhores produções. Vi o Inferno na Torre, Os Dez Mandamentos, Ben Hur, com aquele ator que morreu, o Charlton Heston. No Terromoto (filme-catástrofe da década de 70), as cadeiras até balançavam. Foi um dos melhores filmes que eu vi. O último foi Striptease, com a Demi Moore”, diz.

No Cinespacial chegou a funcionar um bingo, mas, agora está fechado. Brandão - que aparenta bem mais que seus 61 anos – até gostava, mas, viu poucos filmes ali. Hoje, não vai mais aos cinemas. Os shoppings não lhe agradam. “Não me sinto bem nesse lugar. Parece que ele tira a liberdade da gente”, afirma, dentro de sua pequena banca de jornal, á poucos metros das duas salas.

A movimentação que existia na Avenida São João era constante. Em dias de exibição, dependendo do filme, as filas dobravam as esquinas. O Sr. Bartolomeu de Andrade, 51 anos, dono de um bar ao lado, também freqüentava o Comodoro. “Eu morava aqui perto. Preferia assistir na terça ou na quarta-feira. Nos fins de semana era muito cheio. Lembro-me que a fila para ver O Exorcista dobrava a esquina, voltava e dobrava novamente. A Avenida São João funcionava 24 por dia. A gente podia sair as duas, três da manhã pra comer alguma coisa que não tinha perigo. O máximo que existia eram os batedores de carteira”, conta Andrade, com um sorriso nostálgico nos lábios.

Sua opinião sobre o Cinespacial é diferente da do jornaleiro. Andrade achava ruim. Porém, o brilho nos olhos quando fala daquele período é o mesmo. “A sensação de ver Tubarão naquela tela gigantesca era assustadora. Parecia que você estava dentro do filme. Foi uma época muito boa”. Hoje, não vai mais aos cinemas. Prefere ficar em casa e assistir a um DVD. Sinal dos tempos.


Novas iniciativas

Atualmente, iniciativas públicas e privadas tentam resgatar algumas destas antigas salas. O Marabá rendeu-se ao padrão Cinemark/Multiplex e foi reinaugurado no dia 30/05. Onde antes existia um telão com 1500 lugares, agora há cinco salas menores. O arquiteto Ruy Ohtake, um dos mais famosos do país, é o responsável pela reforma, que mistura o conforto do presente com o glamour do passado. David Fernandes, 18, que trabalha em uma banca de jornal quase em frente, acredita no projeto. “Acho que vai ‘bombar’. Pretendo assistir alguns filmes aí”.

Porém, a principal metamorfose ocorreu na Galeria Olido. Há quase cinco anos, ela foi reinaugurada com o propósito de revitalizar o centro de São Paulo. Além do cinema, que foi mantido com foco em filmes longe do circuito comercial, a Olido tornou-se um excelente espaço para shows de música e dança. Muitas características da época em que foi inaugurada (na década de 1950) foram mantidas, como as poltronas vermelhas e o hall de entrada. Mas, infelizmente, ela ainda é um oásis em meio à degradação ao seu redor.

Existe um projeto da prefeitura de reabrir alguns destes antigos cinemas do centro. A ideia é revitalizar um “corredor” que vai do Teatro Municipal às avenidas Ipiranga e São João. O Marrocos deve ser transformado em um cinema municipal. O Art Palácio, em uma casa de espetáculos, nos moldes do Radio City Music Hall, de Nova York. O Cine Ipiranga ainda não tem destino certo. A reforma do Cine Metrópole, na praça Dom José Gaspar, depende de uma aprovação do Conpresp (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico). Também existem projetos para a reabertura dos cines Windsor e Paissandu. Enfim, se tudo isso sair do papel, o centro da cidade, finalmente, começará seu processo de revitalização.


2 comentários:

Patrick Mesquita disse...

Bela matéria João! Não conheci esses cinemas em suas épocas aureas, mas espero qu todos eles abram novamente para que São Paulo retome o glamour do centro da cidade!!!! Abraços e muito interessante essa matéria

alessandra disse...

Parabéns pela matéria!
Cine Comodoro é sem comentários, só quem assistiu um filme lá sabe a emoção, abatida do coração ao som da tela, um dia ainda sonho que alguém reabra esta espetáculo de cinema novamente, e garanto pegaria a fila dobrando a esquina com sorriso nos lábios, espro que algum dia alguém tenha peito pra isso!
Alessandra, 31 anos