sábado, 20 de setembro de 2008

Crônica

DE SUPERMAN A MAZZAROPI

DE SUPERMAN A MAZZAROPI
Foi no Cine Marabá, na avenida Ipiranga, que vi o primeiro filme da minha vida, ainda na infância: Superman, aquele com Marlon Brando e Christopher Reeve, o pioneiro dos blockbusters de super-heróis que povoam as salas de hoje. Foi uma festa. O cinema lotado, com quase mil pessoas vibrando com as façanhas do homem de aço. Tudo era novidade para mim; o lanterninha que nos guiava no escuro, o barulho do projetor e a sensação única de ser absorvido por aquela tela gigantesca. Foi inesquecível. Minha segunda experiência - esta nem tão marcante assim - foi com outro herói, este genuinamente nacional; Mazzaropi. Estava com meu tio Zé e mais dois primos, no Cine Estoril, em Osasco, outra referência para mim. Nem me recordo mais o nome do filme. Lembro-me somente que demos pouquíssimas gargalhadas. Acho que o ingênuo humor “mazzaropiano” já estava em decadência.

A partir daí, então, virei um freqüentador assíduo. Nasceu ali, uma relação repleta de namoros, amassos e alguns momentos solitários. Confesso que o excesso de testosterona me fez assistir a algumas pornochanchadas - que monopolizavam o mercado nacional na época, com suas produções baratas e, na maioria das vezes, ruim de doer. Mas, sobrevivi a elas.

Conheci quase todos os cinemas do centrão. E eram muitos. Tinha o Marrocos, com sua imponente fachada de mármore; o Olido, no largo do Paissandu; as duas colossais salas do Cine Ipiranga; o inesquecível Cinespacial, com três telas exibindo o mesmo filme simultaneamente (como bem lembrou meu amigo Marcos Forte). Era fantástico! E, claro, o incomparável Comodoro, na avenida São João, com seu som “stereo surround” e a tela fora do comum, em 70mm. Foi lá que tive um dos grandes prazeres da minha vida quando assisti Pink Floyd, The Wall. A união da grandiosa música do grupo com os delírios visuais do diretor, mais a qualidade sonora da sala, fizeram a cabeça da minha geração. Uma geração que viveu intensamente todas as coisas boas que o centro proporcionava. Além dos cinemas, havia os bares, as lojas, enfim, toda aquela efervescência.

Tudo isso não existe mais. O centro perdeu seu charme. Dos cinemas da região, alguns se tornaram estacionamentos. Outros, igrejas evangélicas. Sem contar os bingos. Os que ficaram exibem apenas filmes pornográficos ou shows de strip-tease e sexo explícito. O padrão Multiplex e Cinemark multiplicou-se pelos shoppings e virou clichê. Até o meu velho Marabá não resistiu: vão dividi-lo em cinco salas pequenas neste conceito americanizado. As produções, por sua vez, ficaram cada vez mais infantis, aceleradas e idiotas. Sinal dos tempos.

A invenção do vídeo cassete, do DVD, a pirataria, tudo isso mudou a relação do cinema com o público. Antes, um filme podia ficar em cartaz por mais de um ano. Hoje, muitos preferem ver os filmes enclausurados em casa, na telinha da televisão. E a relação do cinema com o centro da cidade, essa, talvez nunca mais seja a mesma.

3 comentários:

Montanha disse...

Caramba João, esta crônica me remeteu aos anos 80....O centro de São Paulo perdeu o glamour, é uma pena. Muito bom o texto!!!

A invasão "americana" de cinemas, o video, o DVD.....levaram as pessoas para os lares.

E tem mais, existem pessoas que preferem assistir em casa à irem ao cinema. Sem palavras...

Otima crônica,

Montanha

Marcos Forte disse...

João, você só se esqueceu do Cine Espacial, aquele com 3 telas, lembra? Era muito louco... rs

Bons anos aqueles do velho centro de São Paulo...

Parabéns pelo texto...

Marcos

Lívia disse...

Olá João!!!
Dei uma olhada no seu blog!! Gostei muito dos textos, vc escreve bem mesmo!!!
Vou fazer propaganda ta bom!!!
(PS: A poesia é a melhor, "embora não seja a sua praia"!rs)
Bj!