sexta-feira, 5 de novembro de 2010

80 anos de História

Dona Benedicta - com “c” mesmo - faz 80 anos neste sábado, dia 6. Com muita disposição, discernimento e vontade de viver. Ao vasculhar seu baú de fotografias antigas (a mais velha data de 1935!) comecei a pensar em sua trajetória até chegar aqui. Coisas que já sei e outras que não foram reveladas. Velhas relíquias guardadas com carinho, que falam por si só.

Imagens de uma infância aparentemente tranquila. Viagens à praia do Gonzaga e à Aparecida com a falecida irmã mais velha, Olga. Entretanto, só há uma foto com toda a família: pai, mãe e as filhas. Imagens que mostram uma jovem muito vaidosa, bem vestida. Nada além do normal. Nunca soube se foi namoradeira. É provável. Mas, não é coisa que se pergunte assim, de repente, sem uma preparação prévia.

Ainda jovem, começa a aparecer a figura de uma criança em seu colo. Em todas as fotos, somente ela e seu filho, Fernando. Foi um divisor de águas em sua vida. Imagino o que deve ter passado, em pleno 1954, com todo o moralismo da época. Em outra fotografia emblemática, a do casamento, em 1957, não parece muito feliz. Está com a aparência séria. Em um corte rápido, Benedicta aparece em sua vida conjugal. Uma vida muito mais simples, a única que Olavo, seu marido, pôde lhe dar. A vaidade desaparece quase que por completo. Para completar a família vieram outros três filhos.

As fotos com seu pai, Luis, quase sempre com sua inseparável sanfona, demonstram a proximidade e a afetividade que nutriam um pelo outro. Sua mãe, Sofia, pouco aparece. Os pais separaram-se quando Benedicta era criança. Sua relação com Dona Sofia foi difícil até o fim, com brigas diárias e intermináveis, das quais fui testemunha.

Quando fica viúva, aos 44 anos, Benedicta tem de se virar para sustentar os filhos, o mais novo com apenas oito anos de idade. Nunca havia trabalhado antes. Então, o destino fez surgir uma mulher brava e lutadora, porém, pouco afetiva e carinhosa. Sua vaidade renasce. Os filhos cresceram, casaram, vieram os netos. Hoje, com a idade avançada, mora sozinha, mas não vive só. É extremamente independente: caminha, viaja, faz compras, resolve problemas. Por onde anda faz amizades. Porém, pelo seu temperamento forte e controlador, não conseguiu conquistar a simpatia de suas noras. Ninguém é perfeito mesmo. Nem as mães.

Cada vida que chega tão longe daria um livro. A de Dona Benedicta, com um “c” no meio, não é diferente. Este é apenas um recorte de sua vida, uma singela homenagem. Aquele menino de oito anos, órfão de pai, é este que vos escreve. Parabéns minha MÃE pelos 80 anos vividos com tanta intensidade. Que Deus te abençoe e te conserve com saúde. E que sua longa história ainda demore pra chegar ao fim.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mudança de paradigmas

Qual o significado da eleição de uma mulher para comandar o país? Talvez o mesmo que a eleição de um negro para a presidência dos EUA. Independente das posições políticas e partidárias de cada um, que este seja o início de uma mudança de visão em relação à competência do sexo feminino e dos afrodescendentes para cargos de chefia. Algo que ainda não conseguimos superar neste país machista e preconceituoso.

Porém, ainda é pouco. O número de mulheres que chefiam ou já chefiaram uma nação é pequeno. Pequeno demais se considerarmos a importância que sempre tiveram. Não lhes faltam competência, nem coragem. Não lhes faltam nada. Estamos começando a mudar essa forma distorcida e elitista de enxergar a competência das pessoas, longe dos estereótipos. O jeito tucano de pensar: só os homens, brancos e velhos, do sul e do sudeste é que podiam chegar tão alto.

Se pensarmos na quantidade de negros em cargos majoritários, a situação é pior. Obama é uma feliz exceção. Aqui no Brasil, a possibilidade de termos um presidente negro é quase nula, já que existem pouquíssimos deputados, senadores, prefeitos ou governadores afrodescendentes. Precisamos melhorar muito ainda pra sermos um país justo. A liberdade de credos também é uma utopia distante.

Vivemos um momento importante, de transição, de mudança de paradigmas. Escrevemos a História no exato momento em que ela acontece. Entretanto, não devemos parar logo após as eleições. A vida acontece mesmo quando nos abstemos dela.

sábado, 24 de julho de 2010

Retrato

Quando nos vemos cansados de esmurrar a parede, de encarar a luta gloriosa.
Quando nos sentimos vencidos pelos fantasmas que nos rodeiam.
Quando nos compreendemos incapazes de modificar o amor à nossa imagem e semelhança.
Quando, sem querer, nos achamos a beira do precipício, sem poder dar um passo a frente, nem voltar atrás.
Quando a solidão insiste em permanecer, mesmo que seja dito o contrário.
Quando deixar jorrar o sangue parece melhor do que estancar a ferida.
Nesses horas é melhor buscar o silêncio que acalma, a distância que fere, a paz que nunca existiu.
E trazer de volta a leveza e a esperança perdidas.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

NOVA ORDEM

Acabou a Copa da África, a Espanha saiu-se vencedora com um futebol bem mais agradável de ver do que o vinha sendo praticado desde a derrota do Brasil na Copa de 1982, justamente na Espanha. Nada de volantes truculentos e sistemas excessivamente defensivos. Os espanhóis fizeram poucos gols, mas, atacando sempre. Levaram menos gols ainda, porém, se defendiam com a bola nos pés.

Há algum tempo atrás escrevi que a vitória da Itália naquela Copa foi a morte do futebol arte. A estratégia utilizada pelos italianos para vencer o torneio foi a que vingou por muitos anos. Entravam em campo para não levar gols. Quando dava, contra-atacavam. E foram extremamente competentes nisso. Este modelo foi vencedor até 2006, com poucas exceções. Felizmente, para o bem dos que amam o futebol mais vistoso, ele foi derrotado na Eurocopa de 2008 e na Copa de 2010.

O que eu espero agora é que o estilo de jogo imposto pelos espanhóis seja predominante nos próximos torneios importantes, principalmente pelas seleções (e clubes) que têm talentos para isso. O Barcelona faz isso há anos. A Holanda foi pela contramão e ficou descaracterizada. A Argentina já tentou fazê-lo na África do Sul. Entretanto, esbarrou na falta de um técnico que soubesse montar um bom esquema para tal.

Que o legado da vitória espanhola seja exemplo para o novo técnico da seleção brasileira. Jogadores para isso nós temos. Que seja o início de uma nova ordem no futebol mundial. E de uma nova mentalidade no futebol brasileiro.

terça-feira, 29 de junho de 2010

CONTO DE PRIMAVERA - PARTE IV

Chegaram a por um ponto final em sua breve história, apesar da força do amor que insistia em não morrer. Sentiram-se fracos e derrotados como nunca antes. Tentaram extirpar de suas entranhas tudo o que cultivaram todo este tempo. Entraram em total desespero. Como poderiam seguir separados?
Ele era o epitáfio de sua paz, aquela que perdeu quando se encontraram. Porém, não conseguia viver sem sua presença. O fim poderia significar o retorno da tranquilidade que ele não queria. Dois destinos entrelaçados por sentimentos intensos e ameaçados pela visibilidade. Dois seres tão marcantes e complexos, vencidos pelo imprevisível.
Seus dilemas se exacerbaram, ela não conseguia trair suas crenças interiores. Queria a permissão de sua consciência, de sua devoção, para viver seu grande amor. Acreditava em milagres. E, agora, implorava por eles, pelo improvável.
Mais uma vez, a imprevisibilidade acontece. Mesmo com todos os motivos para ir embora, ele resolve ficar novamente. Por quê? Porque, se a argamassa de amizade era indestrutível, a de amor foi modelada em espessas camadas de uma liga inoxidável. Faria qualquer coisa para tê-la de novo, inclusive ir contra a sua própria natureza. Passou a acreditar (mesmo cético) em soluções milagrosas.
Era impossível viver apenas do passado, mesmo um passado recente e forte como o deles. Resolveram seguir em frente, mas ainda não como queriam. Os desatinos e destemperos dele, aos poucos, foram cedendo espaço a uma maior serenidade e compreensão. E assim, os dilemas e receios dela começaram a se dissipar.
A aliança que construíram solidificava-se a cada dia, graças à convivência mais pacífica e as incansáveis juras secretas. E, justamente quando não mais se perguntavam o porquê dessa união, as respostas surgiram no horizonte: salvação e plenitude. O destino os uniu para que salvassem o alicerce de suas vidas e se tornassem seres mais completos. Entenderam que se tudo acontecesse no início com o ímpeto que gostariam, seria tão efêmero que não suportaria tantas dificuldades. A partir daquele momento começariam a ensaiar com mais liberdade seus desejos.
Porém, ainda faltava à ela firmar a decisão de sacramentar os elos de ligação que tanto necessitavam. Um filme, um ícone, uma frase de impacto acendeu nela a luz que faltava: entendeu que se pertencia, que era dona de sua própria morada e senhora de seu destino. Sentia-se como se fosse duas mulheres diferentes, duas vidas distintas, cada qual com suas peculiaridades. Para ele, esta ambigüidade era natural, viveu assim até que ela apareceu para colocá-lo nos eixos. Enfim, seus corações se rejubilaram diante das infinitas possibilidades que se abriam.
Criaram jogos de sedução para burlar a distância que os separavam, como entrada para o prato principal da (nada) santa ceia que preparavam com afinco. Algumas pitadas de libido para apimentar o que já era saboroso. Para este banquete guardavam os melhores trajes de gala que possuíam: a nudez total. Imagens e palavras quentes temperavam um menu de opções que os deixavam mais e mais sedentos um do outro. Toda essa energia guardada provocava faíscas, reflexos de suas personalidades. Porém, nada mais poderia atingi-los.
Os longos dias de frio que passaram em pleno verão começaram a esquentar no outono e prometiam arder no inverno se aproximava. Ligaram o piloto automático para seguirem a espera, na medida do impossível. Até que possam alçar o grande vôo de suas vidas, com as asas com que foram presenteados.

sábado, 19 de junho de 2010

Imortal

Pois é, foi-se mais um gênio da raça humana. Um dos grandes das letras na língua portuguesa da História. Deixou-nos o mestre da razão, justamente durante o circo da Copa, nestes tempos em que a racionalidade não predomina. Calou-se o crítico mordaz deste mundo globalizado, o contestador de todas as religiões.

Saramago deixa um legado de independência em relação ao seu discurso, de liberdade do pensamento. Homem de opiniões fortes e polêmicas, posicionou-se sobre todos os temas importantes de seu tempo. Sua obra nos faz refletir sobre nossa condição neste mundo. Era um questionador, um genial irreverente.

Uma grande e irreparável perda. Este ateu e comunista convicto foi um ícone em vida. José Saramago agora é um imortal. Não um imortal das academias repletas de escritores medíocres. Sua arte viverá enquanto houver inteligência. Algo raro nos dias de hoje. E, que agora ficará mais difícil ainda de se ver.


quinta-feira, 10 de junho de 2010

O espetáculo vai começar

Vai começar o maior espetáculo esportivo do planeta. Os amantes dos Jogos Olímpicos que me perdoem, mas a Copa do Mundo mexe muito mais com os nossos sentimentos. Àqueles mais céticos, que vêem o futebol como forma de manipular as massas, deixem suas intolerâncias de lado e aproveitem o grande circo do futebol, esta metáfora da vida e da guerra. As emoções ficam exacerbadas, a flor da pele: alegrias, decepções, raiva, euforia, tristeza.

Será a décima copa da qual tenho lembranças. Por pior que seja o time, por mais que eu xingue o técnico e alguns jogadores, sempre acabo torcendo pela seleção brasileira. Em nenhuma hipótese para a Argentina. O clima de copa do mundo me contagia. Vai chegando a hora e as ruas começam a ser enfeitadas e pintadas, as camisas vão saindo do armário para tirar o cheiro de mofo, os bolões vão se multiplicando por todos os lados, as conversas nos bares, as discussões acaloradas, as noticias sobre o mundial que monopolizam a TV, o rádio, a internet. Uma maravilha!

Melhor ainda quando começam os jogos. Se pudesse veria todos eles. Os hinos sendo executados, os jogadores perfilados, cantando ou tentando cantá-los (a maioria das mulheres adora este momento para ver os craques de perto). E, enfim, a bola rolando. Quais serão as zebras desta vez? E os favoritos?

Vejo a Argentina com grandes chances de levar o caneco pela terceira vez. Digo isso com muita dor no coração. Se Messi, melhor jogador do mundo, reeditar suas melhores partidas no Barcelona, vai ser difícil segurar os portenhos. Acho que a Inglaterra tem boas possibilidades também. Mas, dependem muito de seu grande jogador, Wayne Rooney. Depois, ponho o Brasil (apesar do time mediano), a Espanha e seu belo toque de bola, a Holanda, com seu melhor time desde 98, e os favoritos de sempre (mesmo jogando mal): Alemanha e Itália.

As zebras...bem, desta vez não vejo nenhuma que possa assustar. Talvez a Costa do Marfim ou o Chile de “El Mago” Valdívia. A Coréia do Sul tem chances de se classificar em seu grupo. Mas, não creio que não irá muito além disso. Enfim, vai começar a maratona de jogos. Veremos quem estará na final, dia 11 de julho.




sábado, 15 de maio de 2010

Os Escolhidos

Saiu a lista dos convocados para a Copa da África. Já sabemos quem são os escolhidos e os sete que ficarão secando para ver se carimbam seu passaporte no lugar de algum azarado. Nunca vi uma seleção ser tão criticada e com resultados tão bons no currículo. Afinal, o trabalho de Dunga deve ser tão questionado assim? O técnico da seleção deve convocar os jogadores que estão em melhor fase no momento ou formar um grupo de confiança e blindá-lo contra todos independente do futebol que vem jogando como fez o capitão do tetra? Fico com a primeira opção. Adoraria ver Ronaldinho, Diego, Hernanes, Ganso, Neymar entre os 23 convocados. Gostaria de ter sido surpreendido novamente.

Suas justificativas são compreensíveis. O Gaúcho deixou Dunga na mão quando o técnico mais precisou dele. Por que ele o convocaria agora? Com uma seleção cheia de grandes jogadores na última copa, decepcionamos. O time jogou de salto alto, faltou empenho. Foi nosso fraco desempenho quatro anos atrás que provocou a mudança de técnico e de estilo. Entrou em cena o futebol menos vistoso e mais brigador. O time joga um futebol burocrático, duro, um espelho do que o nosso técnico fazia em campo.

Como sempre, somos um dos favoritos. A seleção está a um mês de sua estréia na África do Sul e com boas credenciais ao título. Ao contrário de 2006, a equipe não possui craques que desequilibram. Kaká é a única e honrosa exceção. E mesmo assim, não está em boa fase. E se ele se machucar? Teremos de aguentar uma equipe cheia de volantes cabeças de bagre. Uma coisa é vencer a Copa América, Copa das Confederações, ficar em primeiro nas Eliminatórias. Copa do Mundo é outra história. Não me parece o suficiente para conquistar o planeta novamente.

Enfim, o time é esse. Certo ou não, Dunga demonstra saber o que quer. Torcerei pela seleção como sempre. Mas, com um pé atrás. A espera que o acaso, que a sorte de uns e o azar de outros faça justiça. E que Dunga possa por em campo o que o nosso futebol tem de melhor.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

CIDADÃOS DE LIXO

Pessoas sem voz vivendo sobre o lixo da indiferença, do descaso, da corrupção. O desmoronamento dos sonhos de quem ainda se dá ao luxo de sonhar. Uma enxurrada de desculpas esfarrapadas tentando justificar o injustificável.

Estamos cansados de chorar catástrofes perfeitamente evitáveis, de contar os mortos e os sobreviventes, que logo serão esquecidos. Parece até que vivem em outro universo. E, de certa forma, vivem mesmo.

Enquanto eles forem tratados (pelas autoridades, elites e pessoas comuns) como cidadãos de lixo, nada muda. Enquanto suas vozes estiverem soterradas sob toneladas de medo e conformismo, tudo continuará como está. Novos Morros do Bumba deslizarão. E, continuaremos a contar e a esquecer nossos mortos.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Falso Domínio

Bem, na falta de um novo texto (vocês sabem, o tempo anda escasso, excesso de trabalhos...), resolvi reeditar este que escrevi no ano passado. Minha humilde homenagem à vocês...


Ser, ao mesmo tempo, Madre Tereza e Margareth Tatcher, não é tarefa difícil pra vocês. Passionais, passivas, inteligentes, sem-vergonhas, puritanas, dissimuladas, quase sempre à beira de um ataque de nervos. Quem de nós, o chamado sexo forte, poderia ser tão completo assim?

Celebridades ou anônimas, mães, filhas, pais, maridos, esposas, amantes. Quantos homens são capazes de exercer uma dupla jornada, de suportar privações, abusos e, ainda, derramar cegamente seu amor por onde passa?

Há muito tempo desisti de tentar entendê-las. Não por acaso, vocês estão, hoje, no centro do meu universo. É a base que me sustenta e ajuda a seguir em frente, a me manter em pé, de cabeça erguida.

Suas curvas me embriagam. Sua capacidade de mutação diária me intriga. Seus mistérios, tão longe de qualquer compreensão, me fascinam. Sua obstinação, às vezes cansa.

E se o mundo fosse governado por vocês? Como seria? Com sua força e determinação teríamos menos força bruta e mais diálogo. Muito mais diálogo. Nosso suposto domínio machista me parece falso. Vocês é que mandam. E já estão começando a perceber isso.

Se analisarmos friamente, este 8 de março é mais um dia comemorativo criado pra vender bugigangas e aquecer o comércio. Mas, a frieza dos fatos é inimiga da poesia. E, já que o dia existe, não custa repetir: PARABÉNS e obrigado por existirem!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CONTO DE PRIMAVERA / PARTE III - O Início

Ficaram distantes algum tempo. Por trinta dias intermináveis tiveram apenas a voz, a escrita e algumas tentativas de contatos telepáticos para abrandar a saudade. Inutilmente. A necessidade de estarem juntos era quase um vício, uma dependência. Imploravam por um remédio milagroso que pudesse salvá-los. Mas, ele não veio.
Uma nuvem suspensa pairou sobre eles. O mesmo destino que os unira, agora os apunhalava por todos os lados. O pequeno castelo que construíram ameaçava ruir pelas vicissitudes de suas vidas. Grandes dilemas geravam enormes ondas de uma possibilidade que se avistava no horizonte. Ela tentou retomar (em vão) seu antigo projeto de vida, do qual ele não podia compartilhar. Uma verdade que ele deixara soterrada sob toneladas de esperanças. Agora, teria de ajudá-la a curar suas feridas e trazê-la de volta. E esperar. Naquele momento, restavam-lhes as lembranças de seus primeiros momentos, quando tudo começou.
Ela chegou em busca de paz. Quando o conheceu, a simpatia e o interesse foram imediatos. Assim que se apresentou a ela, sua atitude máscula e viril chamou-lhe a atenção desde o início. Algo raro em seu habitat. Ela ainda não conhecia suas qualidades e poderes, que fariam toda a diferença.
A expectativa para ele era de um ano de muitas mudanças e aventuras. E assim foi. De cara, sentiu-se atraído por aquela mulher exuberante e inalcançável. Sua inteligência surpreendeu-lhe positivamente. Da atração para a admiração foi um passo. Quando percebeu que havia conteúdo em toda aquela bela estampa, aproximou-se naturalmente.
A amizade consolidava-se a passos lentos e firmes. A conjunção de seus talentos gerava frutos inesperados. Suas opiniões tornaram-se necessárias. Já se importavam um com o outro. Sem perceber, sentiam a falta de um simples bom dia. Seguiam adormecidos sem saber do turbilhão que os despertariam para a paixão incandescente. Bastava apenas uma fagulha para que o fogo se acendesse. E ela veio, por descuido, sem aviso, em uma manhã como todas as outras. E que levou suas vidas rumo ao olho do furacão.
Como bons caçadores, aceitaram o desafio, mas, não se dobraram facilmente. Ela deixou-o se aproximar apenas para testar suas habilidades. Ele aproveitou-se da oportunidade única e utilizou-se de todas as suas armas para conseguir o que queria. As semelhanças entre si começaram a minar todas as chances de viverem algo descompromissado e passageiro. Ela resistiu o quanto pode. Ele insistiu mais do sabia que podia. E, entre perdas e ganhos, sobreviveram.

Mais uma vez, a fortaleza era posta a prova. Mas, ela possui um ingrediente que pode fazê-la manter-se firme, com ainda mais força: uma indestrutível argamassa de amizade verdadeira.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

SÃO PAULO 456

Ela é um grande paradoxo. Ao mesmo tempo em que acolhe, maltrata. É linda e feia, verde e cinza. Nos orgulhamos de seu gigantismo, de seus números exagerados, mas praguejamos contra seu trânsito caótico.

Vivemos na maior cidade do hemisfério sul, onde a solidão existe e pode ser extremamente cruel. Onde estão as grandes oportunidades e imensas desigualdades. É aqui que escolhi para viver – ou pela qual fui escolhido?

Às vezes me pego pensando em viver uma vida mais tranquila, no litoral, daqui alguns anos... mas, acho que não estou preparado para tanto sossego. São Paulo é um misto de amor e vício, sensatez e insanidade. Está longe de ser o lugar ideal pra se viver, mas eu adoro. E merece todas as nossas homenagens. PARABÉNS SÃO PAULO!


domingo, 17 de janeiro de 2010

FUNDAMENTALISMO E PRECONCEITO

Numa semana marcada pela tragédia no Haiti, um idiota trouxe à tona outros males que contribuem para piorar este nosso triste mundo: o fundamentalismo religioso e o preconceito. A declaração do cônsul do Haiti no Brasil (nem vale a pena seu nome), que culpa a religião do povo pela catástrofe que atingiu seu país é uma das coisas mais estúpidas e bizarras que já ouvi.

As palavras deste senhor (que segurava um singelo terço nas mãos) são apenas a ponta de um iceberg. A ofensa às religiões e ao povo africano ainda é muito comum por aqui, em nosso Brasil miscigenado. Demonizam suas crenças e ritos, sem conhecê-las, como se fossem a própria reencarnação do mal. Tudo muito velado, dito ao pé dos ouvidos cristãos acima de qualquer suspeita. Hipocrisia pura.

Isto sempre me incomodou. Para mim, pouco importa qual a crença das pessoas com quem me relaciono. Isso não altera a essência delas. Não julgar ou depreciar a religião de outros é o mínimo que qualquer pessoa civilizada deve fazer. Mas, além deste preceito ser constantemente desrespeitado, quando se trata das religiões afro-indigenas a coisa fica ainda pior.

O fundamentalismo é nocivo na medida em que faz com que as pessoas deixem de dialogar. Tornam-se arrogantes. Quando se junta ao fanatismo, pode causar danos irreparáveis. Diminuem a importância de suas religiões porque consideram também assim as pessoas. É o velho preconceito étnico-racial disfarçado. Esqueceram de todos os ensinamentos que o Mestre ensinou.

Em um momento em que a solidariedade tem unido tantos adversários históricos, num sinal de que pode haver esperança, declarações como esta mostram que a Humanidade ainda tem muito que evoluir.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

POR QUE O HAITI?

Um país que já estava destroçado, um povo já muito sofrido. A tragédia instalada no quintal da América. Então, vem a natureza mostrar seu poder, justamente a quem pouco tem como se defender. Seria um castigo dos deuses? Todos se perguntam: por que o Haiti? Não há respostas, só o pesar.

Lamentamos pelos mortos espalhados pelas ruas, pelos que ainda não foram encontrados. Pelos desabrigados, as casas destruídas, as escolas, hospitais. Lamentamos pelo choro das crianças órfãs, os pais dilacerados pela perda de seus filhos. Pelo caos que se multiplicou na já caótica Porto Príncipe.

Nessas horas, o sentimento de humanidade, de que somos parte de uma única célula, fica mais exacerbado. O Haiti da fome, da miséria, não merecia atenção ou piedade. Foi preciso um terremoto para que os olhos do mundo se voltassem para aquele povo.

A utopia que resiste em mim me fez pensar em arrumar as malas e partir para lá como jornalista, informando, observando, colhendo impressões e, principalmente, como cidadão do mundo. Contribuir para minimizar os danos irremediáveis. Caí na real. Da perplexidade à impotência em um segundo.

Porém, a pergunta ecoa em todas as casas, em todas as línguas, feita a todos os deuses possíveis e não vai nunca se calar: por que o Haiti?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CONTO DE PRIMAVERA - PARTE II

E o desejo se multiplicou. Tudo tomava proporções hiperbólicas. Dias pareciam anos. Beijos, o êxtase. Suspiros, desencantos. A paixão era incessante. Ele passou a acreditar em vidas passadas, tamanha a comunhão que existia. Ela simplesmente já sabia. Aceitavam-se exatamente como chegaram até ali, com toda a carga que trouxeram consigo. E reconheceram-se como tudo aquilo que sonharam para si até aquele momento.
Dúvidas existenciais permeavam seus ideais de felicidade. Completavam-se. Entendiam-se na perfeição de seus devaneios. Pensar no outro era tão normal que já se percebiam presentes até nas pequenas coisas do dia-a-dia. À medida que se aproximavam de sua união, aumentava a certeza de que uma força superior os colocara lado a lado por algum sublime propósito. Seriam ecos de outras vidas? Talvez.
Para sintonizar os dois destinos travaram batalhas heróicas em suas trincheiras. O medo e o desejo lutavam bravamente dentro dela, num conflito em que apenas um poderia sair-se vencedor. A espera era insuportável para alguém tão impaciente e desatinado como ele. O tamanho da expectativa que depositava em suas costas poderia feri-la de morte. A impossibilidade dava-lhe socos no estômago, deixavam-no desorientado. Suas recaídas quase puseram tudo a perder. Era uma situação nova em sua vida, muito além de seu entendimento. Algo que ela, mais centrada, conseguia enfrentar com serenidade.
Porém, apesar de todas as incertezas, tudo valia à pena. Ensinava-o a viver um dia de cada vez. Buscava a coragem que ele possuía de sobra e tentava adaptar-se as novas regras. Pensaram em desistir, por um ponto final em sua breve história. Mas, suportavam as adversidades em defesa de suas convicções apaixonadas.
Então, em um lampejo de razão, ele decidiu aquietar seu coração e esperar. Agora, não havia mais como voltar a paz e tranquilidade de antes. Queriam se pertencer na plenitude de seus delírios...
E o desejo venceu. Todos os sonhos, as fantasias e o tesão guardados por toda a primavera eclodiram no verão. Nada mais existia além de seus corpos unidos em prol do amor verdadeiro. O sabor de suas carnes permanecia em suas entranhas, sem que nada pudesse tirá-lo. O medo persistia. Mas, eles ainda continuavam ali, onde ninguém podia vê-los. Onde as paixões se alimentam de sonhos, de promessas. Não sabem até quando ficarão. Nem podem saber. As palavras do poeta ecoam em alto e bom som: será para sempre enquanto for possível.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Arranha-céus

Por onde passo vejo arranha-céus nascendo, desenhando uma nova paisagem neste canto da cidade. “É o progresso”, dirão alguns. “É bom para a economia”, dizem outros. Pode ser. Mas, também mostra como ainda é regido o crescimento de nossa cidade. Asfalto, concreto, carros em excesso, edifícios. A idéia que se faz de progresso é distorcida. E muita gente se acostumou a ela. Será que São Paulo ainda pode ser uma cidade mais humana? Ou pegamos um caminho sem volta rumo ao caos? Gostaria de viver em um lugar com mais verde, menos cinza, poder enxergar o horizonte sem tantos prédios, pedalar com segurança nas ruas. Tudo isso, sem ter de me mudar para outro lugar. Sei lá, nestes últimos meses tenho acreditado mais em sentimentos utópicos. Que as coisas mais impossíveis podem ser concretizadas. E tenho tido provas disso. Então, sonhar não custa nada...


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Help

Há vinte e nove anos ele se foi, morto por um desequilibrado, um idiota. Este episódio nos mostrou o quanto a vida é efêmera. Em uma fração de segundos, um dos maiores gênios da música do século XX sucumbia a um gesto irracional. Mostrou também o quanto podemos ser imortais. Depende do tamanho de nossa obra. E a sua foi gigante, inesgotável. Com ou sem seu grupo - que extrapolou os limites de qualidade musical.
Era o beatle mais inteligente, mais consciente, mais irônico, mais atormentado. Assim como quase todos os gênios, era um paradoxo. Solo e com sua inseparável Yoko, seguiu seu rumo, engajou-se em causas como o fim da guerra do Vietnã. Retirou-se de cena por cinco anos, cuidou de sua família, viveu intensamente estes momentos. Quando voltava aos holofotes triunfalmente, aconteceu o pior. Já era um mito em vida. Após sua morte, o culto se multiplicou.
John Lennon dispensa qualquer elogio barato. Sua vida foi atribulada, intensa. Suas canções falam por si só. E falam diretamente ao meu coração. Uma delas, Help, representa bem o momento em que estou vivendo...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Consciência Ambiental

Nesta segunda começa a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Copenhague, Dinamarca, reunindo líderes de 193 países. Lá, será decidido o futuro climático do mundo, o que cada país fará para que não entremos em um colapso eminente. Ou, o sacrifício que cada governo está disposto a fazer para isso. Há 12 anos, em Kyoto, os países mais poluidores (EUA, China, Rússia) simplesmente ignoraram as metas estabelecidas e o resultado está aí.

Afinal, muitos interesses econômicos estarão em jogo também. Devemos acompanhar com atenção. Mas, não só. A nobre conferência dos próximos dias poderá definir grandes metas macro, que nos afetarão a médio e longo prazo. Então, cabe a nós, cidadãos conscientes, iniciar e disseminar um processo de mudança de comportamento e mentalidade ambiental, com pequenas ações em nosso dia-a-dia.

E não é tão fácil como parece. Vivemos na maior cidade do hemisfério sul, onde nem todos possuem acesso aos principais itens de saneamento básico. Onde a coleta de lixo seletiva ainda é insignificante. Onde muitos ainda jogam lixo nas ruas, nos córregos e nos rios. Onde boa parte das pessoas simplesmente não se interessa por estas questões. Onde não existe, por parte dos governantes, um comprometimento com esta causa.

Devemos começar por nós mesmos. Como exigir atitude das pessoas e dos governos, se não agimos de acordo? Se ainda entupimos o meio ambiente com sacolinhas de plástico? Se consumimos produtos que agridem o meio ambiente? Além de investir em campanhas que façam com que as crianças também se interessem e participem mais. Na escola onde trabalho pouquíssimas professoras fazem isso.

Então galera, seria muito importante que no final da Conferência de Copenhague, um novo modelo de desenvolvimento ambiental comece a ser implantado. Com a nossa contribuição a partir de agora.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Natal

Então, é Natal. Seu “espírito” já está por toda a parte. Os shoppings estão todos enfeitados, os edifícios também. Na TV, as propagandas só falam disso. E ainda têm a coragem de passar aqueles filmes natalinos de sempre, pra encher linguiça na programação. E os noticiários exibem suas reportagens apelativas, repletas de “boas intenções”.

E daí? Confesso que para mim isso é muito chato. Não gosto de Natal. Não sei o porquê, mas é assim desde pequeno.

O que mais me irrita nessa época é a hipocrisia institucionalizada. De repente, como em passe de mágica, todos são amigos de infância. E o pior; ter de sorrir para não estragar o Natal de ninguém. Solidariedade e amor ao próximo devem ser praticados o ano inteiro, não em alguns dias apenas. O resto é conversa fiada pra aquecer o comércio.

Tem uma pessoa que gosto muito que definiu muito bem o sinto:
- Gostaria de poder dormir no dia 23 e acordar só no dia 26...
Ah, seria ótimo!

Simples desse jeito. Pode parecer ranzinza de minha parte, mas é assim. Aqueles que gostam, que sentem o espírito natalino presente em seus corações, que me perdoem a sinceridade. E que tenham, sim, um Feliz Natal.

sábado, 31 de outubro de 2009

CONTO DE PRIMAVERA

Viveram em uma mesma época. Talvez tivessem frequentado os mesmo lugares, se esbarrado algumas vezes por aí. Afinal, tinham desejos parecidos, as mesmas necessidades, procuravam coisas semelhantes.
Andaram pelos caminhos tortuosos das paixões desenfreadas sem se machucar. Caminharam por trilhas aventureiras sem se perder. E mergulharam nas águas calmas do amor tranquilo.
Ele achava que podia segurar as rédias de seu destino. Ela descobriu mais cedo que existem forças acima do nosso entendimento e aprendeu a domar seu ímpeto de viver.
O que não sabiam era que suas vidas se entrelaçariam em uma teia de emoções múltiplas. Que tudo o que existiu antes não poderia ser comparado ao que viria. Que as canções que sempre ouviram seriam sua trilha sonora.
Descobriram-se iguais na essência. Combinaram que o peso da impossibilidade não os deixariam mais fracos. Pelo contrário. Agora que se encontraram, não se perderiam mais. A única certeza que existe é o desejo de ficarem juntos.