segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CONTO DE PRIMAVERA / PARTE III - O Início

Ficaram distantes algum tempo. Por trinta dias intermináveis tiveram apenas a voz, a escrita e algumas tentativas de contatos telepáticos para abrandar a saudade. Inutilmente. A necessidade de estarem juntos era quase um vício, uma dependência. Imploravam por um remédio milagroso que pudesse salvá-los. Mas, ele não veio.
Uma nuvem suspensa pairou sobre eles. O mesmo destino que os unira, agora os apunhalava por todos os lados. O pequeno castelo que construíram ameaçava ruir pelas vicissitudes de suas vidas. Grandes dilemas geravam enormes ondas de uma possibilidade que se avistava no horizonte. Ela tentou retomar (em vão) seu antigo projeto de vida, do qual ele não podia compartilhar. Uma verdade que ele deixara soterrada sob toneladas de esperanças. Agora, teria de ajudá-la a curar suas feridas e trazê-la de volta. E esperar. Naquele momento, restavam-lhes as lembranças de seus primeiros momentos, quando tudo começou.
Ela chegou em busca de paz. Quando o conheceu, a simpatia e o interesse foram imediatos. Assim que se apresentou a ela, sua atitude máscula e viril chamou-lhe a atenção desde o início. Algo raro em seu habitat. Ela ainda não conhecia suas qualidades e poderes, que fariam toda a diferença.
A expectativa para ele era de um ano de muitas mudanças e aventuras. E assim foi. De cara, sentiu-se atraído por aquela mulher exuberante e inalcançável. Sua inteligência surpreendeu-lhe positivamente. Da atração para a admiração foi um passo. Quando percebeu que havia conteúdo em toda aquela bela estampa, aproximou-se naturalmente.
A amizade consolidava-se a passos lentos e firmes. A conjunção de seus talentos gerava frutos inesperados. Suas opiniões tornaram-se necessárias. Já se importavam um com o outro. Sem perceber, sentiam a falta de um simples bom dia. Seguiam adormecidos sem saber do turbilhão que os despertariam para a paixão incandescente. Bastava apenas uma fagulha para que o fogo se acendesse. E ela veio, por descuido, sem aviso, em uma manhã como todas as outras. E que levou suas vidas rumo ao olho do furacão.
Como bons caçadores, aceitaram o desafio, mas, não se dobraram facilmente. Ela deixou-o se aproximar apenas para testar suas habilidades. Ele aproveitou-se da oportunidade única e utilizou-se de todas as suas armas para conseguir o que queria. As semelhanças entre si começaram a minar todas as chances de viverem algo descompromissado e passageiro. Ela resistiu o quanto pode. Ele insistiu mais do sabia que podia. E, entre perdas e ganhos, sobreviveram.

Mais uma vez, a fortaleza era posta a prova. Mas, ela possui um ingrediente que pode fazê-la manter-se firme, com ainda mais força: uma indestrutível argamassa de amizade verdadeira.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

SÃO PAULO 456

Ela é um grande paradoxo. Ao mesmo tempo em que acolhe, maltrata. É linda e feia, verde e cinza. Nos orgulhamos de seu gigantismo, de seus números exagerados, mas praguejamos contra seu trânsito caótico.

Vivemos na maior cidade do hemisfério sul, onde a solidão existe e pode ser extremamente cruel. Onde estão as grandes oportunidades e imensas desigualdades. É aqui que escolhi para viver – ou pela qual fui escolhido?

Às vezes me pego pensando em viver uma vida mais tranquila, no litoral, daqui alguns anos... mas, acho que não estou preparado para tanto sossego. São Paulo é um misto de amor e vício, sensatez e insanidade. Está longe de ser o lugar ideal pra se viver, mas eu adoro. E merece todas as nossas homenagens. PARABÉNS SÃO PAULO!


domingo, 17 de janeiro de 2010

FUNDAMENTALISMO E PRECONCEITO

Numa semana marcada pela tragédia no Haiti, um idiota trouxe à tona outros males que contribuem para piorar este nosso triste mundo: o fundamentalismo religioso e o preconceito. A declaração do cônsul do Haiti no Brasil (nem vale a pena seu nome), que culpa a religião do povo pela catástrofe que atingiu seu país é uma das coisas mais estúpidas e bizarras que já ouvi.

As palavras deste senhor (que segurava um singelo terço nas mãos) são apenas a ponta de um iceberg. A ofensa às religiões e ao povo africano ainda é muito comum por aqui, em nosso Brasil miscigenado. Demonizam suas crenças e ritos, sem conhecê-las, como se fossem a própria reencarnação do mal. Tudo muito velado, dito ao pé dos ouvidos cristãos acima de qualquer suspeita. Hipocrisia pura.

Isto sempre me incomodou. Para mim, pouco importa qual a crença das pessoas com quem me relaciono. Isso não altera a essência delas. Não julgar ou depreciar a religião de outros é o mínimo que qualquer pessoa civilizada deve fazer. Mas, além deste preceito ser constantemente desrespeitado, quando se trata das religiões afro-indigenas a coisa fica ainda pior.

O fundamentalismo é nocivo na medida em que faz com que as pessoas deixem de dialogar. Tornam-se arrogantes. Quando se junta ao fanatismo, pode causar danos irreparáveis. Diminuem a importância de suas religiões porque consideram também assim as pessoas. É o velho preconceito étnico-racial disfarçado. Esqueceram de todos os ensinamentos que o Mestre ensinou.

Em um momento em que a solidariedade tem unido tantos adversários históricos, num sinal de que pode haver esperança, declarações como esta mostram que a Humanidade ainda tem muito que evoluir.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

POR QUE O HAITI?

Um país que já estava destroçado, um povo já muito sofrido. A tragédia instalada no quintal da América. Então, vem a natureza mostrar seu poder, justamente a quem pouco tem como se defender. Seria um castigo dos deuses? Todos se perguntam: por que o Haiti? Não há respostas, só o pesar.

Lamentamos pelos mortos espalhados pelas ruas, pelos que ainda não foram encontrados. Pelos desabrigados, as casas destruídas, as escolas, hospitais. Lamentamos pelo choro das crianças órfãs, os pais dilacerados pela perda de seus filhos. Pelo caos que se multiplicou na já caótica Porto Príncipe.

Nessas horas, o sentimento de humanidade, de que somos parte de uma única célula, fica mais exacerbado. O Haiti da fome, da miséria, não merecia atenção ou piedade. Foi preciso um terremoto para que os olhos do mundo se voltassem para aquele povo.

A utopia que resiste em mim me fez pensar em arrumar as malas e partir para lá como jornalista, informando, observando, colhendo impressões e, principalmente, como cidadão do mundo. Contribuir para minimizar os danos irremediáveis. Caí na real. Da perplexidade à impotência em um segundo.

Porém, a pergunta ecoa em todas as casas, em todas as línguas, feita a todos os deuses possíveis e não vai nunca se calar: por que o Haiti?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CONTO DE PRIMAVERA - PARTE II

E o desejo se multiplicou. Tudo tomava proporções hiperbólicas. Dias pareciam anos. Beijos, o êxtase. Suspiros, desencantos. A paixão era incessante. Ele passou a acreditar em vidas passadas, tamanha a comunhão que existia. Ela simplesmente já sabia. Aceitavam-se exatamente como chegaram até ali, com toda a carga que trouxeram consigo. E reconheceram-se como tudo aquilo que sonharam para si até aquele momento.
Dúvidas existenciais permeavam seus ideais de felicidade. Completavam-se. Entendiam-se na perfeição de seus devaneios. Pensar no outro era tão normal que já se percebiam presentes até nas pequenas coisas do dia-a-dia. À medida que se aproximavam de sua união, aumentava a certeza de que uma força superior os colocara lado a lado por algum sublime propósito. Seriam ecos de outras vidas? Talvez.
Para sintonizar os dois destinos travaram batalhas heróicas em suas trincheiras. O medo e o desejo lutavam bravamente dentro dela, num conflito em que apenas um poderia sair-se vencedor. A espera era insuportável para alguém tão impaciente e desatinado como ele. O tamanho da expectativa que depositava em suas costas poderia feri-la de morte. A impossibilidade dava-lhe socos no estômago, deixavam-no desorientado. Suas recaídas quase puseram tudo a perder. Era uma situação nova em sua vida, muito além de seu entendimento. Algo que ela, mais centrada, conseguia enfrentar com serenidade.
Porém, apesar de todas as incertezas, tudo valia à pena. Ensinava-o a viver um dia de cada vez. Buscava a coragem que ele possuía de sobra e tentava adaptar-se as novas regras. Pensaram em desistir, por um ponto final em sua breve história. Mas, suportavam as adversidades em defesa de suas convicções apaixonadas.
Então, em um lampejo de razão, ele decidiu aquietar seu coração e esperar. Agora, não havia mais como voltar a paz e tranquilidade de antes. Queriam se pertencer na plenitude de seus delírios...
E o desejo venceu. Todos os sonhos, as fantasias e o tesão guardados por toda a primavera eclodiram no verão. Nada mais existia além de seus corpos unidos em prol do amor verdadeiro. O sabor de suas carnes permanecia em suas entranhas, sem que nada pudesse tirá-lo. O medo persistia. Mas, eles ainda continuavam ali, onde ninguém podia vê-los. Onde as paixões se alimentam de sonhos, de promessas. Não sabem até quando ficarão. Nem podem saber. As palavras do poeta ecoam em alto e bom som: será para sempre enquanto for possível.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Arranha-céus

Por onde passo vejo arranha-céus nascendo, desenhando uma nova paisagem neste canto da cidade. “É o progresso”, dirão alguns. “É bom para a economia”, dizem outros. Pode ser. Mas, também mostra como ainda é regido o crescimento de nossa cidade. Asfalto, concreto, carros em excesso, edifícios. A idéia que se faz de progresso é distorcida. E muita gente se acostumou a ela. Será que São Paulo ainda pode ser uma cidade mais humana? Ou pegamos um caminho sem volta rumo ao caos? Gostaria de viver em um lugar com mais verde, menos cinza, poder enxergar o horizonte sem tantos prédios, pedalar com segurança nas ruas. Tudo isso, sem ter de me mudar para outro lugar. Sei lá, nestes últimos meses tenho acreditado mais em sentimentos utópicos. Que as coisas mais impossíveis podem ser concretizadas. E tenho tido provas disso. Então, sonhar não custa nada...


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Help

Há vinte e nove anos ele se foi, morto por um desequilibrado, um idiota. Este episódio nos mostrou o quanto a vida é efêmera. Em uma fração de segundos, um dos maiores gênios da música do século XX sucumbia a um gesto irracional. Mostrou também o quanto podemos ser imortais. Depende do tamanho de nossa obra. E a sua foi gigante, inesgotável. Com ou sem seu grupo - que extrapolou os limites de qualidade musical.
Era o beatle mais inteligente, mais consciente, mais irônico, mais atormentado. Assim como quase todos os gênios, era um paradoxo. Solo e com sua inseparável Yoko, seguiu seu rumo, engajou-se em causas como o fim da guerra do Vietnã. Retirou-se de cena por cinco anos, cuidou de sua família, viveu intensamente estes momentos. Quando voltava aos holofotes triunfalmente, aconteceu o pior. Já era um mito em vida. Após sua morte, o culto se multiplicou.
John Lennon dispensa qualquer elogio barato. Sua vida foi atribulada, intensa. Suas canções falam por si só. E falam diretamente ao meu coração. Uma delas, Help, representa bem o momento em que estou vivendo...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Consciência Ambiental

Nesta segunda começa a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Copenhague, Dinamarca, reunindo líderes de 193 países. Lá, será decidido o futuro climático do mundo, o que cada país fará para que não entremos em um colapso eminente. Ou, o sacrifício que cada governo está disposto a fazer para isso. Há 12 anos, em Kyoto, os países mais poluidores (EUA, China, Rússia) simplesmente ignoraram as metas estabelecidas e o resultado está aí.

Afinal, muitos interesses econômicos estarão em jogo também. Devemos acompanhar com atenção. Mas, não só. A nobre conferência dos próximos dias poderá definir grandes metas macro, que nos afetarão a médio e longo prazo. Então, cabe a nós, cidadãos conscientes, iniciar e disseminar um processo de mudança de comportamento e mentalidade ambiental, com pequenas ações em nosso dia-a-dia.

E não é tão fácil como parece. Vivemos na maior cidade do hemisfério sul, onde nem todos possuem acesso aos principais itens de saneamento básico. Onde a coleta de lixo seletiva ainda é insignificante. Onde muitos ainda jogam lixo nas ruas, nos córregos e nos rios. Onde boa parte das pessoas simplesmente não se interessa por estas questões. Onde não existe, por parte dos governantes, um comprometimento com esta causa.

Devemos começar por nós mesmos. Como exigir atitude das pessoas e dos governos, se não agimos de acordo? Se ainda entupimos o meio ambiente com sacolinhas de plástico? Se consumimos produtos que agridem o meio ambiente? Além de investir em campanhas que façam com que as crianças também se interessem e participem mais. Na escola onde trabalho pouquíssimas professoras fazem isso.

Então galera, seria muito importante que no final da Conferência de Copenhague, um novo modelo de desenvolvimento ambiental comece a ser implantado. Com a nossa contribuição a partir de agora.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Natal

Então, é Natal. Seu “espírito” já está por toda a parte. Os shoppings estão todos enfeitados, os edifícios também. Na TV, as propagandas só falam disso. E ainda têm a coragem de passar aqueles filmes natalinos de sempre, pra encher linguiça na programação. E os noticiários exibem suas reportagens apelativas, repletas de “boas intenções”.

E daí? Confesso que para mim isso é muito chato. Não gosto de Natal. Não sei o porquê, mas é assim desde pequeno.

O que mais me irrita nessa época é a hipocrisia institucionalizada. De repente, como em passe de mágica, todos são amigos de infância. E o pior; ter de sorrir para não estragar o Natal de ninguém. Solidariedade e amor ao próximo devem ser praticados o ano inteiro, não em alguns dias apenas. O resto é conversa fiada pra aquecer o comércio.

Tem uma pessoa que gosto muito que definiu muito bem o sinto:
- Gostaria de poder dormir no dia 23 e acordar só no dia 26...
Ah, seria ótimo!

Simples desse jeito. Pode parecer ranzinza de minha parte, mas é assim. Aqueles que gostam, que sentem o espírito natalino presente em seus corações, que me perdoem a sinceridade. E que tenham, sim, um Feliz Natal.

sábado, 31 de outubro de 2009

CONTO DE PRIMAVERA

Viveram em uma mesma época. Talvez tivessem frequentado os mesmo lugares, se esbarrado algumas vezes por aí. Afinal, tinham desejos parecidos, as mesmas necessidades, procuravam coisas semelhantes.
Andaram pelos caminhos tortuosos das paixões desenfreadas sem se machucar. Caminharam por trilhas aventureiras sem se perder. E mergulharam nas águas calmas do amor tranquilo.
Ele achava que podia segurar as rédias de seu destino. Ela descobriu mais cedo que existem forças acima do nosso entendimento e aprendeu a domar seu ímpeto de viver.
O que não sabiam era que suas vidas se entrelaçariam em uma teia de emoções múltiplas. Que tudo o que existiu antes não poderia ser comparado ao que viria. Que as canções que sempre ouviram seriam sua trilha sonora.
Descobriram-se iguais na essência. Combinaram que o peso da impossibilidade não os deixariam mais fracos. Pelo contrário. Agora que se encontraram, não se perderiam mais. A única certeza que existe é o desejo de ficarem juntos.

domingo, 25 de outubro de 2009

Novos Rumos

Puxa! Mais um mês sem postar nada por aqui. Estou em débito comigo e com as pessoas que gostam de ler meus textos. Peço desculpas a todos. Nestes últimos dias, continuei escrevendo, mas, estava focado em outras coisas. Li algumas coisas que me inspiraram a tentar outros vôos e novos rumos. Ainda está em processo de amadurecimento. Porém, em breve, é provável que terei novidades a apresentar.
Até mais...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Papel em branco

Em cada sala, um pequeno mundo de grandes aprendizados. Em cada pequeno rosto, uma pequena história de vida. São pequenos seres humanos. Observando-os, entendi que já nascemos com algumas predisposições, não somos papel em branco e nada vem ao acaso.

Aprendi que temos alma. Está estampada em seus olhos, ainda em formação. Aprendo todos os dias a lidar com sua espontaneidade sem máscaras, sem subterfúgios. Tento me aproximar de seu universo tornando-me um deles. Muitas vezes, me deparo com minha incapacidade em compreender suas necessidades. Será que são tão diferentes do que éramos antes?

É óbvio que o meio em que vivem é fundamental na formação de suas personalidades. Porém, não é o único. Como explicar suas diferenças, o jeito delicado de um, a agressividade do outro, a extrema sensibilidade dessa e o distanciamento daquela?

Acredito que viemos a este mundo já carregados de informações, de sentimentos, de instintos, vindos de um “outro lugar”. E não estou falando da carga hereditária. Isso fica claro pra mim, agora que trabalho com crianças o dia inteiro. Este é um dos maiores mistérios da nossa existência.

Some-se a isso o conhecimento que adquirimos durante a vida, os lugares que frequentamos, as pessoas com quem nos relacionamos e o resultado...bem, o resultado é único. Não existem duas pessoas iguais e este é o grande milagre da Humanidade.

Sempre me perguntam como é (e está sendo) este contato com as crianças. É difícil, não há como negar. Sua sinceridade não dá tréguas. Algumas dessas pequenas pessoas ainda não foram domesticadas, estão em seu estado bruto. Então, a melhor resposta é "estou sempre aprendendo com elas..."



sábado, 19 de setembro de 2009

Transpiração

Falta de inspiração, preguiça, trabalhos de faculdade, problemas pessoais...ou tudo ao mesmo tempo agora! Nunca fiquei tanto tempo assim sem postar nada!
Contra a preguiça, luto todos os dias. Os trabalhos, vou fazendo - ando meio desanimado, mas sigo em frente. Os problemas...não posso deixar que me abatam. O ideal seria transformá-los em fonte de inspiração antes de resolvê-los. E inspiração nem sempre vem como uma entidade espírita. Necessita de muita transpiração.
Então, ao trabalho Johnny Bigod! O tempo não espera por ninguém...

sábado, 22 de agosto de 2009

20 anos sem Raul

Conheci Raul Seixas ainda criança, no dia em que meu irmão Valter, cinco anos mais velho e já iniciado no mundo do Rock e da MPB, chegou em casa com o “Krig-Ha Bandolo” debaixo do braço. Assim que a agulha da vitrola tocou o vinil, a paixão e identificação foram instantâneas. Rock com sotaque brasileiro, letras inteligentes, irônicas, sarcásticas, exotéricas, bem humoradas. Todo esse caldeirão de ideias mexeu comigo. Quem era aquele barbudo magricela que cantava coisas tão malucas, tão diferente de tudo o que se ouvia na época?

Raul era anárquico, livre e extremamente consciente de tudo o que rolava ao seu redor. Para os caretas, era apenas um doido varrido. Para os que o admiram, Raulzito traduz um sentimento atemporal de viver longe das amarras que nos prendem a uma vida medíocre. Ele viveu tudo aquilo que cantou, como um cientista que se presta a ser cobaia de suas próprias experiências. E sofreu as consequências por isso.

Ele foi político sem tomar partido de nenhum movimento. Falou de amor, com verdade, sem apelação e sem soar piegas. Falou de misticismo, sem se prender a nenhuma religião. Foi o início, o fim e o meio. A metamorfose ambulante, a mosca na sopa, o sapato 36, o cachorro urubu em guerra com os “EU”. Seu legado ainda está intacto e com muito a ser descoberto.

As histórias e lendas que cercam sua vida são um capítulo à parte. Uma delas, contada por amigo de meu irmão chamado Daniel, conta que o “Maluco Beleza”, nos anos 70, esteve num boteco perto de onde morávamos, um bairro da periferia de Osasco. Tomou cachaça com a rapaziada e tudo mais. Esta “visita” está registrada em livro por um irmão do Daniel. Cresci ouvindo esta história e até hoje não sei se é verídica ou não. Pretendo resgatá-la um dia.

Ontem, na Praça da Sé, junto com milhares de outros fãs, prestei minha homenagem como tinha de ser: cantando suas canções junto com os amigos. Somente um artista como ele pode aglutinar pessoas tão diferentes em torno de sua obra. Foi um grande momento de celebração a vida e a música.

Em 1989, Raul pegou carona com o moço do disco voador e, desde então, vive por aí, neste mundão de Deus, rindo de nossa cara ou meio irritado com o que estamos fazendo de nossas vidas e de nosso planeta. Quem sabe um dia ele não volta no metrô linha 743.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O primeiro

As primeiras vezes são sempre marcantes:
O primeiro beijo e a primeira noite de amor. O primeiro gole quando se está com sede. A primeira professora, o primeiro gol, a primeira mordida na maçã. O primeiro filho, suas primeiras palavras, os primeiros passos, a primeira decepção. O primeiro dia após a chegada dos hormônios. E o primeiro emprego.
Hoje, Juliana inicia sua caminhada rumo à própria independência. Ela carrega muito deste espírito livre dentro de si. É um momento de crescimento, de fortalecimento da auto-estima. Que ela tenha mais sorte e competência do que eu. Estarei ali, ao lado, pra dar uma força sempre que ela precisar...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Guerreiro da Igualdade e da Paz

Ele é um guerreiro negro segurando a bandeira branca da igualdade e da paz. Para os usurpadores, era um perturbador da ordem vigente, um guerrilheiro. Quando a humilhação de seu povo ficou insuportável, empunhou as armas e lutou bravamente. Tornou-se estrangeiro em seu próprio país. Perdeu a liberdade, mas não o orgulho. Sua voz, mesmo sufocada, não se calou. Tentaram comprar sua alma, porém ele nunca traiu seus irmãos. Tentaram baixar sua cabeça, quebrar suas pernas, mas o mundo conheceu sua história e clamou por justiça.
Então, os mesmos que o prenderam foram obrigados a soltá-lo. O guerreiro da igualdade e da paz, finalmente, estava livre. Mesmo após tanto tempo de cárcere, seu rosto tinha uma serenidade que transcendia nosso entendimento. Ele mostrou que era maior do que todos aqueles que o feriram. Para muitos, seria a hora da vingança, de tomar de volta tudo aquilo que lhe foi tirado. Não para ele. Em seus sonhos não havia espaço para mais um banho de sangue. Queria ver seu país em harmonia. E governou para todos, sem distinção de raça e cor. Não foi unânime, cometeu equívocos. Afinal, é humano como todos nós. Mas, não um humano qualquer. Talvez uma evolução da raça, calejado pelo sofrimento e enobrecido pelo perdão.
É o símbolo máximo da luta pela igualdade racial de nossos tempos. E o melhor de tudo: ele ainda está entre nós, vivo e atuante. Não precisamos reverenciar apenas os mártires desta causa. Aos 91 anos, completados em 18 de julho deste ano, a vida de Nelson Mandela tem de ser celebrada por todos aqueles que acreditam que o dia em que ninguém mais fará distinção de uma pessoa por sua raça e cor ainda chegará.
Viva Mandela!!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Aniversário

Hoje, o Blog do Bigod faz um ano. Um ano de muito aprendizado, na prática e através dos amigos blogueiros. Agradeço aos que me incentivaram a começar. Relutei bastante, tinha um certo receio da exposição, da responsabilidade que isso traria. Besteira. Criar o blog só me ajudou a escrever melhor.

Quero agradecer aqueles que leram, que comentaram, que discordaram do que escrevi. Aos elogios também (e as críticas quando vierem). É bom recebê-los, mas, tento não deixar que me tornem acomodado ou deslumbrado.

Enfim, espero continuar escrevendo neste espaço (e em outros, claro). E encontrar aquilo que venho buscando há tempos: um estilo próprio de falar de coisas simples e complexas, de hoje e de ontem, de dentro e de fora. O apoio de vocês é fundamental pra mim.

Quero celebrar este momento e agradecer. Obrigado a todos.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A revolução

É impressionante como a nossa sociedade acostumou-se com o lixo, com o sujo, o errado. É só dar uma olhada a nossa volta.
Parece normal andar pelo centro da cidade e ver o lixo espalhado pelas ruas e calçadas (como no Parque Dom Pedro). Ver o rio Aricanduva transbordando de sujeira em dias de chuva. Ver o nosso sistema levando os jovens da periferia a tornarem-se criminosos. Ver as Ong’s tentando resgatar alguns poucos, como se estivesse segurando água com uma peneira. Ver nossa mídia tendenciosa manipulando informações à revelia do povo.
Parece normal assistir ao achincalhamento público do Congresso Nacional, que deveria nos representar. Ver que aqueles que hoje acusam, já cometeram e cometerão os mesmos crimes dos que estão sendo acusados. Ver os mais ricos sonegarem impostos, enquanto as classes médias pagam o pato. Ver as pessoas se matando no trânsito, por imprudência e negligência. Parece normal ver crianças e adolescentes ouvindo músicas que fazem apologia ao crime e ao sexo.
Parece normal, mas, tenho certeza de que não é. Calma, senhores e senhoras, não me converti a nenhuma dessas igrejas que condenam a todos, como se só eles estivessem certos. Só estou cansado de ver tanto egocentrismo, comodismo, tanta impunidade. Estou cansado de ver tanta gente agindo pelo senso comum, sem personalidade. De ver que a “Lei de Gerson” (a que dizia ‘gosto de levar vantagem em tudo’) virou regra. De ver tanta falta de educação. Porém, me sinto como um camundongo lutando contra a vassoura, parece algo maior do que eu. Acho que só a união pode vencer o medo e a inércia. Então, como unir todos os que pensam assim?
Como disse outro dia no blog da Michele, apesar dos 40, ainda carrego um pouco de utopia dentro de mim. Sem aquela ingenuidade de antes, mas ainda esta aqui. Em contrapartida, também carrego este egoísmo característico dos nossos tempos. De olhar muito para dentro de si próprio.
Contudo, as qualidades inerentes à nossa profissão nos forçam a enxergar o mundo com uma luneta. Sair de nosso mundo interior, buscar o externo. Por isso, nós, futuros (e atuais) jornalistas somos um veículo fundamental para a mudança. Ou, como diria meu amigo Beto, "a educação é a revolução".

sábado, 25 de julho de 2009

O "X" da questão

Desde o início do ano vivemos sob a regência de uma nova ortografia. O pretexto para este brilhante ato foi a unificação da escrita nos países de língua portuguesa. Porém, passado o impacto inicial, achei as mudanças desnecessárias. Alguns acentos e hífens caíram, outros foram criados. E daí?

Podiam ter mexido em coisas mais importantes. Uma que sempre me incomodou foi o verdadeiro som do “X”. Afinal, qual é a dessa letra? Dei uma pesquisada no inglês e no espanhol e nestes idiomas o “X” tem uma função bem definida. No português não.

Uma hora é “ch”, em outra é “z”. Às vezes, torna-se “cs” ou, simplesmente, um “s” e até "c". Ô letrinha volúvel! Isso sempre me causou muita confusão quando criança. Imagino que hoje ainda seja um grande problema para os pequenos. O “X” sempre foi uma incógnita (na matemática, literalmente) pra mim.

Então, porque não definir apenas uma fonética para ela? Exemplo: se a partir de hoje o “X” passasse a ter somente som de “ch” e, em alguns casos, “cs”, exame passaria a ser “ezame”. Excesso, “ecesso”. Estranho não?

Parece desnecessário, meio bisonho até. Afinal, não é algo que vá acabar de uma hora pra outra com os problemas do país. Mas, poderia facilitar um pouco a vida de quem vai começar a ler e escrever a partir de agora. Ou é somente mais um dos meus delírios.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Entressafra

Segunda-feira, dia 13 de julho, foi o Dia Mundial do Rock. Vez ou outra surge aquele coro anunciando sua morte. Mesmo fora da grande mídia, ele segue firme e forte.

Acho até melhor esse ostracismo involuntário. Pelo menos ficamos sabendo quem gosta de verdade. Porém, um fato me preocupa: a falta de ídolos para as novas gerações. Dei uma passada na Galeria hoje e o que predomina nas camisetas são bandas de mais de 15 anos.

Nesta década, não surgiu nada tão bom que pudesse fazer frente aos grandes nomes do passado. E, sem renovação, os mais jovens estão condenados a ouvir uma música cada vez mais velha.

Não que eu tenha alguma coisa contra. Muitíssimo pelo contrário. Quem me conhece sabe disso. Talvez faltem veículos de divulgação – adoro a Kiss FM, mas ela toca pouca coisa recente. Ou, talvez seja um período de entressafra mesmo.

Sei lá. Enquanto isso vou vasculhando meu baú (e a internet, por que não?) pra ver se descubro novos sons antigos. E velhas coisas atuais.