sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Crônica de uma paixão idealizada

Nem se conheciam direito, trocaram poucas palavras. Mesmo assim, beijaram-se uma vez. Um beijo roubado, meio desengonçado, nada a ver com aqueles hollywoodianos, cheios de glamour. Mal havia uma história entre eles. Mas, aquela forte atração, aquele desejo de se verem mais, de se abraçarem, insistia em continuar.
Na verdade, ela não tinha como encaixá-lo em sua vida. Ele achava que sim. Esse desencontro provocava situações diferentes das que já tinham vivido. Falavam-se somente uma vez no dia. Não podiam se procurar, telefonar. Mesmo com tão pouco, ele não conseguia tirá-la da cabeça. Mesmo não havendo espaço para ele em sua vida, ela o queria. Nem seus horários combinavam. Ele tinha dois empregos e ainda estudava pela manhã. Ela estudava de noite e trabalhava durante o dia. Pareciam condenados por um feitiço a nunca poderem se encontrar.
Porém, apesar de todos os obstáculos, eles se encontraram da maneira mais inusitada que se possa imaginar. Um dia, seus pensamentos materializaram-se como naquelas fantasias cinematográficas que passam à tarde na TV. Antes que pudessem pensar noutra coisa, seus braços já se entrelaçavam com toda a volúpia. E se amaram como dois animais no cio. E continuaram a se ver, cada vez com mais força e intensidade, mesmo com suas consciências e o mundo dizendo não.
Eles seguiram em frente, correndo como loucos, sem saber aonde tudo isso chegaria. Sabem somente que uma paixão assim não pode ser vivida de outra forma. E, assim será, enquanto existir poesia.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Bálsamo





Cada dia me convenço mais
Do que muitos se esquecem:
De que não é só o rompimento
com a Pré-História
Que transformará
O futuro no Jardim do Éden.
Nem mesmo o prenúncio
De uma fugaz vitória
Pode ocultar as fendas
Que na superfície aparecem.

Sinto o peso do que
Cada recomeço traz na mão:
Estilhaços espalhados
Do que não se pôde ter.
São carcinomas que
Se alimentam de auto compaixão
E que velhos vícios
Insistem em manter
Próximo as artérias
Que conduzem à razão.

A cada dia que passa
Enxergo com mais clareza
Que a nova retórica,
Aliada a velhas virtudes conhecidas
São formas de diminuir a dor
E aumentar a certeza
De que este é o bálsamo
Que vai cicatrizar as feridas
E libertar as vaidades
Que encontravam-se presas.

Todo dia sinto mais forte
Do que a minha própria essência,
De que nada pode deter
O rumo das correntes marítimas
Mesmo que, em algum momento,
Perca a consciência
E decida enveredar novamente
Pelas paisagens mais íntimas
Sem pensar no que ficou
Além das inconseqüências.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

In Memorian

Tudo o que queria era entender como a vida funcionava. Gostaria de saber por que foi tão dura com ele. Poderia ter acreditado mais em si mesmo. Não conseguiu. Nos seus últimos anos, procurou na religião sua paz interior. Não encontrou. Queria que sentissem orgulho dele, e não pena. Sua auto-piedade já lhe fazia mal o suficiente.

Gostaria de ter dado mais conforto à mulher e às filhas. Queria ter comemorado o primeiro aniversário de Larissa. Sempre teve, desde a infância, um olhar perdido e triste. Nunca conseguiu perdê-lo. Podia ter pedalado mais. Não teve tempo. As dores não deixaram. O tumor cresceu e corroeu suas entranhas, seus sonhos, sua vida.

Não pôde usufruir sua bike nova, que havia acabado de ganhar. Nunca mais pedalaremos juntos. Não me ajudará mais nas coisas que combinamos alguns meses antes. Trabalhos incompletos. Projetos deixados pela metade.

Não sabemos se pagaremos a conta de luz amanhã, se usaremos aquele tênis novo que compramos ontem. E aquele texto que não terminei de escrever? E a conversa com os amigos na semana vem? Não sabemos nada. É difícil para mim lidar com perdas assim. Quando é alguém com seus 90, 95 anos, é mais natural e aceitável. Mas, morrer aos 36, numa luta desigual contra si mesmo, no momento em que sua sorte parecia mudar para melhor, é uma grande sacanagem. No mínimo, injusto.

Hoje, faz oito meses que ele se foi. Assim é a vida. Às vezes, pagamos caro pelos nossos erros, nossos medos, nossas escolhas. A lição que fica é o velho clichê: viver a vida como se não houvesse amanhã, sem deixar nada pra depois. Tá bom, sempre ficarão pendências, obras inacabadas (até Beethoven deixou a sua). Porém, devemos tentar. Sempre. Até o fim.

Em memória ao amigo Ademir. Que, finalmente, tenha encontrado a paz.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Meu Selo Maneiro

Ganhei um selo bem legal que vem com brinde da Ana Rosa. Para postar o selo tenho que seguir regras. São elas:
1- Exiba a imagem do selo "Olha Que Blog Maneiro" Que vc acabou de ganhar!!!

2 - Poste o link do blog que te indicou.(muito importante!!!)

3 - Indique 10 blogs de sua preferência.

4 - Avise seus indicados.

5 - Publique as regras.

6 - Confira se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.

7 - Envie sua foto ou de um(a) amigo(a) para olhaquemaneiro@gmail.com juntamente com os 10 links dos blogs indicados para verificação. Caso os blogs tenham repassado o selo e as regras corretamente, dentro de alguns dias você receberá 1 caricatura em P&B.

Vamos lá:
1-




3- Meus favoritos são:












4- Serão todos devidamente avisados

5- As regras foram publicadas.

6- Dessa vez vou conferir, hein!!!

7- vou escolher uma e envio logo mais!!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

1982 - A morte do futebol arte












Houve um tempo em que éramos quase imbatíveis. Tínhamos os melhores jogadores, jogávamos mais bonito. Era o chamado futebol arte. Porém, houve outra época em que, mesmo com grandes craques, não obtivemos grandes conquistas em copas. Foi um período de enormes decepções. A maior delas, a mais doída, a mais inusitada e, por isso mesmo, a mais esclarecedora, foi a derrota para a Itália na copa da Espanha, em 1982.

São nas copas que as novas tendências futebolísticas se projetam. Após a vitória da fantástica seleção de 70 – o melhor time de futebol de todos os tempos -, o Brasil chegou à copa de 74 (a primeira na Alemanha) enfraquecido. E, sem Pelé, Tostão, Gerson, Clodoaldo e Carlos Alberto, caímos, na semifinal, diante da grande seleção da Holanda, que praticava o chamado futebol total; seus jogadores não tinham posição fixa, atacavam e defendiam em bloco com a mesma eficiência. Por isso, foram chamados de “Carrossel Holandês”. E ainda possuíam um jogador fora de série: Johann Cruyff. Foi uma das maiores seleções que vi jogar. Infelizmente, a “Laranja Mecânica” azedou na final contra os duros alemães.

Em 78, na Argentina, nada de novo em termos táticos. A dona da casa sagrou-se campeã às custas de um dos maiores escândalos futebolísticos da história. Muita coisa estranha aconteceu naquela noite fria de Rosário, entre Argentina e Peru. Tínhamos uma boa seleção. Ficamos com um terceiro lugar invictos, e “campeões morais”. Mas, a sensação de frustração ficou no ar.
Então, chegamos em 82, na Espanha. Eram muitos craques: Zico, Sócrates, Falcão, Junior, Leandro. E ótimos jogadores, como Cerezzo, Éder, Oscar, Batista e Paulo Izidoro (o original). As exceções eram o esforçado, porém artilheiro, Serginho Chulapa – que só foi titular graças a contusão de Careca, então jovem revelação do Guarani – e o instável goleiro Valdir Peres. E, além de tudo, treinados por Telê Santana, o melhor técnico que eu, em mais de 30 anos de paixão pelo futebol, vi na vida. Um timaço. Ao contrário de outras seleções, o time não saiu desacreditado do Brasil. Todos confiavam nele e em sua capacidade.

Tivemos uma estréia dificílima contra a forte União Soviética. Em seguida, pulverizamos Nova Zelândia e Escócia. Por ser a primeira copa com 24 equipes, o regulando sofreu algumas modificações. Na segunda fase, os 12 times classificados foram divididos em quatro grupos de três seleções. Só o primeiro colocado se classificaria para as semifinais. Enfrentaríamos Argentina e Itália, nossos maiores rivais. A confiança era tanta que nada tirava a certeza do resultado positivo. E foi assim contra a Argentina. Foi indescritível a sensação que senti quanto vi aquele verdadeiro “baile”. E eles já tinham Maradona, que saiu expulso após uma “voadora” em Batista. Três a um. Na segunda rodada, os italianos vencem os argentinos por dois a um. Foi neste jogo que começou a brilhar a estrela de Paolo Rossi, que marcou ali seus primeiros gols no torneio. Brasil e Itália se enfrentariam novamente em uma decisão, como em 70 e 78. Jogaríamos pelo empate. Porém, ninguém em sã consciência tinha dúvida de que venceríamos de novo.

05/07/1982. Era um adolescente cheio de espinhas e apaixonado por futebol. Trabalhava em uma empresa de distribuição de medicamentos. Naquele dia, já acordei pensando no grande jogo. Em todas as rodas de amigos, no café, na hora do almoço, só se falava na partida. “Qual será o placar? De quanto iremos ganhar?” Às quatro da tarde, paramos para ver mais um show. Éramos mais de cinquenta pessoas aglomeradas em frente a TV. Estádio Sarriá, Sevilha. “O que aconteceu com o nosso time? Como aquela equipe medíocre pôde nos vencer?” Lembro-me perfeitamente do silêncio insurdecedor que surgiu após o apito final, da expressão de choro no rosto de quase todos. Foi horrível. Porém, a vida e o futebol seguiram em frente.

Muito se falou sobre aquela impressionante derrota. Para mim, foi ali que os europeus aprenderam a vencer o futebol arte. Em 54, 66 e 74, estávamos um degrau abaixo de Hungria, Portugal e Holanda. Em 82, muito pelo contrário. Os italianos jogaram com muita inteligência. Postaram-se em seu campo, com aquela forte marcação que os caracteriza e exploraram os contra-ataques. Algo muito visto nos dias de hoje, mas, não na época. O time brasileiro não sabia jogar na defesa. Atacar era sua maior virtude e acabou sendo seu ponto fraco.
Demoramos muito tempo tempo para assimilar aquela catástrofe.
Em 86, ainda fomos redimidos pela Argentina do genial Maradona. Em 90... bem, esta eu prefiro esquecer. Foi somente em 94, na copa dos EUA, em nova final contra a Itália, que colocamos em prática as lições deixadas pela “Tragédia de Sarriá”. Mas, isso é outra história.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

AINDA OS CHAMAMOS PELO PRIMEIRO NOME


É incrível como após tantos anos, da derrocada do idealismo panfletário dos anos 60, passando pelo ceticismo dos 70, até o marasmo musical desta década e da incontestável contribuição musical, ainda hoje os chamamos pelo primeiro nome. Na história da música pop, nenhuma outra banda conseguiu uma proximidade tão grande e intensa com seus fãs quanto eles.

Após a morte de George, fui tomado por um sentimento de nostalgia sem precedentes. Foi como se tivesse perdido um primo distante e, a ferida que já estava cicatrizada desde o trágico assassinato de John começou a sangrar novamente. Então, a lembrança de passagens de minha infância e adolescência tornou-se mais viva. E o gosto por suas canções também.

Sempre que possível, mantenho-me informado sobre suas vidas. Ringo grava muito pouco e vive tranquilo em sua fazenda. Fiquei triste quando Linda, a esposa de Paul, faleceu de câncer há algum tempo. Felizmente, o velho Macca não só se recuperou do baque, como gravou uma sequencia de álbuns fantásticos, onde resgatou sua veia rock and roll. Quanto a George, o pior se confirmou em 29/11/2001. Era o mais místico dos quatro. Soube de sua morte dois dias depois, indo para o trabalho. Imediatamente meus olhos encheram-se d’água. Estava na companhia de minha esposa e minha filha. Então, segurei as lágrimas.

Acho que a paixão pelos Fab Four começou já na fecundação. Estávamos na década de 60, no auge de seu sucesso (inclusive aqui no Brasil) e a atmosfera daquela época estava impregnada por suas músicas – ainda bem, pois a partir daí os anos seriam de chumbo. Digo isto, porque minha mãe sempre conta a historia de que, já aos quatro anos de idade, toda vez que os ouvia, pulava e cantava como um louco, tentando balançar o cabelo como eles (em vão, claro). Lembro-me que vivia cantando Obla-Di Obla-Da pelos cantos, sem ter ideia do que significava (até hoje não tenho). Algum tempo depois, um de meus irmãos chegou em casa com toda a coleção deles. Todos os discos! E mais algumas coletâneas! Lá estavam, em minhas mãos, todas as canções da maior banda de todos os tempos! No inicio, comecei ouvindo as mais conhecidas: I Wanna Hold Your Hand, Help, Get Back. Aos poucos, passei a devorar todos aqueles discos de forma voraz. Mesmo durante a adolescência, no auge de meu gosto por rock pesado, nunca deixei de ouvi-los. Mesmo que, em alguns momentos, com menos frequência.

Nos períodos em que estiveram totalmente fora de moda (e da mídia), sempre encontrei malucos com o mesmo gosto “ultrapassado”. Discutíamos nossas preferências por canções, álbuns, sobre quem cantava melhor, ou quem era o mais legal. Sempre tive uma preferência especial por Paul e suas composições – que alguns críticos chamavam de canções de amor tolas. Ringo compunha pouquíssimo. Mas, sua importância para a unidade da banda é inquestionável. George, além de ser o responsável pela introdução de instrumentos indianos, que deu um toque mais místico à música do grupo, escreveu grandes canções como While My Guitar Gently Wheeps. Seu ponto alto foi no disco Abbey Road, onde compôs os dois maiores hits, mais duas excelentes músicas. John era a cabeça, o mais consciente, o mais político. É dele a primeira canção da banda que fugia dos temas românticos (Help). Também, as mais experimentais e maior conteúdo psicodélico.

Em um contexto geral, os maiores hits da carreira do grupo foram compostos por Paul. Porém, não é este o motivo de minha preferência. Ele criava desde as mais belas e singelas canções de amor (Yesterday e Eleonor Rigby, por exemplo), passando por baladas contagiantes (Hey Jude, Oh! Darling), rocks furiosos (Helter Skelter). Mesmo quando recriava clássicos de outros artistas, conseguia performances melhores que os originais (Long Tall Sally, de Little Richards, é o melhor exemplo). Considero-o um dos cinco melhores cantores de rock de todos os tempos. É dele a primeira canção do pop internacional que tenho consciência de ter curtido em seu tempo. Tinha uns sete ou oito anos e a música era “Band On The Run”. Além de tudo isso, minha admiração por ele multiplicou-se ainda mais após o lendário show que fez no estádio do Morumbi, em 1993. Os “mega-astros” Madonna e Michael Jackson, haviam acabado de passar por aqui, com aquelas exigências absurdas, muita frescura e um certo ar de desdém por qualquer coisa abaixo da linha do Equador. Alguns dias depois, chega Paul McCartiney, um dos melhores cantores e compositores de todas as épocas, ex-membro e fundador da maior banda (de rock, pop e afins) da história, com uma simplicidade e simpatia impressionantes. O cara tem uma importância para a música muito maior do que as outras figuras citadas, e mesmo assim, não precisou se esconder de ninguém, nem usar máscaras ou desprezar os fãs. Foi realmente uma grande lição de humildade e respeito.

Quanto aos álbuns, enquanto a maioria considera Sgt. Peppers insuperável, eu sempre achei o Álbum Branco, tanto pela versatilidade, quanto pela sua qualidade e despretensão, o melhor disco da banda. Mesmo com a deterioração das relações entre eles – as gravações transcorreram em um clima péssimo, chegando a ponto de quase não se falarem no estúdio -, o resultado final é genial. Depois dele vem o maravilhoso Abbey Road; Revolver – o verdadeiro divisor de águas da carreira do grupo; o revolucionário Sgt. Peppers; e Help, o melhor disco da primeira fase.

Pois é. Só agora, na casa dos 40, é que sinto com mais intensidade a importância da influência que eles exerceram e ainda exercem sobre mim. A paixão pela música e a musicalidade inerente. Considero-me um privilegiado por ter crescido com eles. Thank you guys!

domingo, 25 de janeiro de 2009

Soul Music

Sem saudosismos, nos últimos meses tenho ouvido muita música dos anos 60. Especialmente a soul music. O nome não podia ser mais apropriado: musica da alma. Essa é a sensação que sinto quando ouço aquelas canções. Elas tocam bem lá no fundo, na alma da gente. A primeira vez que tive contato com elas foi nos anos 80, através do filme “Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers)”, que tinha uma trilha sonora absolutamente espetacular. Fui atrás, pesquisei e descobri que eram clássicos do blues e soul, sem distinguir o que era um e o que era o outro. Nasceu aí, meu caso de amor pelos dois.

Alguns anos depois, outro filme veio sedimentar essa paixão: “The Commitments” (que teve um subtítulo nacional imbecil – “Loucos Pela Fama”). Era a história de jovens irlandeses pobres que, por pura paixão e em pleno início dos anos 90, resolvem montar uma banda e aventurar-se pelo gênero. Comprei o disco e comecei a me interessar pelos originais. Lembro-me de uma frase que o protagonista dizia: “os irlandeses são os negros da Europa”. Não me lembro bem o porquê. Deve ser pelo fato de serem discriminados pelos primos ricos do continente – guardadas as suas devidas proporções.

A este altura, já estava completamente hipnotizado pela atmosfera soul. Conheci a Motown, gravadora fundada em, 1959, em Detroit, por um visionário chamado Berry Gordy Jr. Ele conseguiu captar o novo som que era feito pelos negros nos EUA, uma época em que o rock de Chuck Berry e Elvis começava a dar sinais de cansaço. O som da Motown tinha algumas características marcantes: seus arranjos continham harmonias recheadas de instrumentos de corda e muita influencia da música gospel. Outra gravadora importante foi a Stax, fundada em 1957 por Jimmy Stewart, em Memphis. Sua sonoridade era bem diferente. Tinha um som mais cru e denso, com uma pegada mais blues e rock.

Nem todos os grandes artistas Soul são da Motown ou Stax. Porém, todos tiveram uma importância capital para a evolução da música dos anos 60 e das décadas seguintes (negra ou não). Basta dizer que artistas dos mais diversos gêneros como os Beatles, os Stones, Prince, os Chilli Peppers e, mais recentemente, Joss Stone e Amy Winehouse, beberam de suas águas. Nos anos 70 e, em menor número nas décadas seguintes, mais clássicos foram paridos sob a alcunha do soul. Houve, ainda, a evolução para uma música mais dançante, o funk - o original, não o lixo carioca de hoje. Porém, as maiores pérolas foram criadas na década de 1960.

Você conhece a música soul? Se não, experimente. Se até um velho rocker de coração duro como eu foi sensibilizado por ela, todos podem. Experimentem. O legado deixado por James Brown, Marvin Gaye, Ray Charles, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Smokey Robinson, entre inúmeros outros nomes, será lembrado para sempre como uma fonte inesgotável de inspiração para qualquer época.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Reflexões em movimento


Antes do texto, o contexto. O ano era 2004. Estava desempregado, em crise no casamento, meu cachorro havia morrido e o futuro parecia reservar poucas perspectivas. Alguns de vocês sabem que sou ciclista nas horas vagas. Pedalar não faz bem só para o meu corpo. É um momento de reciclagem, de reflexões. E, em uma dessas, idealizei e escrevi...


REFLEXÕES EM MOVIMENTO

Em movimento
Tudo fica mais propício.
A ansiedade dá uma trégua.
A angústia cessa temporariamente seu ataque.
Golpes no fígado
Que vão minando a resistência.
Fica-se menos vulnerável a pensamentos tolos
Sobre coisas improváveis,
Mas não impossíveis.
Transformar o fogo que queima
Em combustível para a alma
É encontrar a paz
Sem sair da luta.
É continuar girando
E olhando para frente.
Sem culpa, sem salvação.
De frente para a encruzilhada
Com uma nova aurora pintada de azul
E uma tonelada saindo dos ombros
Recolho meus estilhaços pela manhã
E vou me recompondo aos poucos
Deixando pedaços de mim pelo asfalto:
Suor, saliva, ressentimentos.
Aspirando cada partícula de fuligem
E transformando em energia bruta.
Com ela, me sinto um super-homem
Nas ruas da megalópole.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O que fará Obama?

Primeiro texto de 2009. Um ano que já começou em guerra. Em todos os noticiários, o assunto é a brutal invasão de Israel à Faixa de Gaza. Não se justifica o uso de tamanha força a um inimigo com um poder bélico tão desproporcionalmente inferior. Não quero discutir quem são os verdadeiros donos daquele duro e árido pedaço de terra. Se Deus ou Alá. Muito menos quem atirou primeiro.

O atual presidente americano já manifestou seu apoio total e irrestrito ao exército israelense, como já se esperava. Já sabíamos, também, que a desacreditada ONU, em um gesto tucano, ficaria em cima do muro.

Até agora, Obama pouco falou. Está cauteloso. O que fará ele com este primeiro abacaxi internacional que terá de descascar? Será tudo aquilo que se espera dele? Ou, ele é apenas a outra face da mesma e desgastada moeda? Seria Barack Obama apenas um produto de marketing criado para limpar a barra yankee, completamente suja após oito anos de trapalhadas cometidas por Bush Jr?

Talvez não. Ele parece consciente do peso que carrega. O peso de milhões de acorrentados em navios fétidos vindos do continente negro. O peso do lamento blues nas plantações de algodão do sul dos EUA. O peso dos excluídos do sonho americano. Ele sabe que nunca alguém de sua cor chegou tão alto.

O que se espera dele é que acabe com esta guerra estúpida, que cancele o embargo econômico à Cuba, que corte os gastos do orçamento bélico americano, que comprometa-se em acabar com o genocídio de fome e AIDS na África de seus ancestrais, que assine o protocolo de Kyoto. Ele sabe que se fizer tudo isso pode provocar a ira dos ultraconservadores e acabar com uma bala na cabeça.

Talvez Obama não tenha a coragem e competência necessárias para promover tais mudanças. Ele não é o salvador da humanidade, como tentam mostrá-lo. Não se pode cair nesta armadilha. Mas, aparentemente, é mais inteligente, maleável e tolerante que seu antecessor – o que não é muito difícil. Pode ser o início de uma era com menos armas e mais diálogo. O que já seria um grande avanço.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Natal, Ano Novo e Prêmio Dardos


Então, é Natal. Ele esta aí, batendo à nossa porta. Mais uma semana e o ano termina. Confesso que não gosto muito desta época. Por inúmeros motivos, alguns pessoais, outros não.


É um período de balanços, de retrospectiva, de nascimento de novos sonhos, novas metas. No ano que vem, vai ser diferente...à mim, sempre fica a sensação de que faltou algo...


Tudo isso é necessário. Morremos um pouco em dezembro para renascermos e janeiro. E assim caminha a humanidade.


Este é o último texto deste ano. O ano de nascimento deste blog. Dei o máximo de mim em tudo que escrevi. Prometo que no ano que vem tentarei ser melhor.


Agradeço à todos que contribuíram com seus comentários. Agradeço, principalmente, ao Marcos e ao Montanha, que me incentivaram a criar este espaço. E, claro, não posso me esquecer da alegria de ganhar o Prêmio Dardos. Obrigado aos que me indicaram. Sinto-me muito honrado por isso.


Enfim, desejo um grande Natal e Ano Novo para todos. Sem muita correria e toda essa estupidez em que transformaram esta data. Espero que possamos refletir para que sejamos seres humanos melhores em 2009.
E vamos aos meus indicados ao Prêmio Dardos (não são 15, mas, são ótimos):
Beto - lindembergrocha.blogspot.com/

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

QUEM É O MELHOR?

Quem é o melhor jogador de futebol do mundo na atualidade? Nos últimos tempos essa resposta muda a cada temporada. Ou, pelo menos, de duas a três vezes por ano.

Claro que a visibilidade, hoje, é infinitamente maior do que antes. Maradona só começou a ser visto em ação, com freqüência, em meados dos anos 80 (além das copas), quando as tv’s abertas começaram a transmitir o (já na época milionário) campeonato italiano. Pelé e Garrincha, menos ainda.

O fato é que a pouca visibilidade ajudou a alimentar toda a mística em torno dos maiores gênios com a bola nos pés.

Hoje, é muito fácil assistir aos melhores campeonatos de futebol do mundo. Está tudo na ponta dos dedos. Canais abertos e a cabo transmitem todos eles, pelo menos seis dias por semana.

A conseqüência disso é que, todos conhecem as virtudes e os defeitos de cada jogador. Se um pereba faz um gol de placa no campeonato alemão ou o artilheiro do campeonato espanhol perde um gol feito, o mundo inteiro ficará sabendo em instantes. São conseqüências da superexposição e do imediatismo de nossos dias.

O brilho dos craques também acaba sendo fugaz. Ronaldinho – ainda o jogador com o melhor repertório técnico do mundo – chegou, por duas temporadas no Barcelona, muito próximo do que os grandes craques fizeram no passado. Hoje, com apenas 28 anos - idade que era considerada o auge de um jogador de futebol -, luta a duras penas para voltar à velha forma.

No início do ano, poucos contestavam a superioridade de Cristiano Ronaldo. Agora, confirmada a sua eleição como o melhor jogador do ano pela Fifa, seu reinado (que apenas começou) já é questionado.

Em tempo: para mim, o melhor jogador do mundo hoje, 04 de dezembro de 2008, às 18h e 45 min, é Lionel Messi.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

45 minutos

Chegamos ao fim de mais um ano letivo. Anteontem, foi o final dos primeiros 45 minutos de nosso jogo, a metade da nossa jornada. Espero que as palavras “sub” e “dp” não sejam pronunciadas por ninguém até o fim do ano.
Apesar de tudo - professores sem conteúdo, sem comprometimento, sem humildade, matérias que não acrescentaram nada e outras das quais esperava mais - foi um ano produtivo.
Foi o ano em criei meu blog - que ainda não sei mexer direito - para aprimorar esta grande paixão que é escrever. Foi, também, o ano em que nossa sala ficou maior. O que parecia ser ruim, revelou-se o contrário. Ganhei novos amigos, que, juntamente com os antigos, estarão comigo pelos próximos dois anos e por toda a vida.
Mesmo com todos os problemas do curso, foi neste ano que tive o gosto de me sentir jornalista, mesmo que por poucos momentos. E gostei muito disso. Essa coisa de mergulhar em um universo, aprender o máximo sobre ele, conhecer pessoas (e não simplesmente fontes), e transformar tudo em palavras, ao mesmo tempo simples, mas que consigam captar sua essência, me fascina. Sem contar o trabalho como freela.
Tudo o que aprendi sobre os atletas de handebol cubanos exilados em São Caetano, o uso das bicicletas como meio de transporte, as propriedades terapêuticas da musicoterapia, a elitização da cultura em São Paulo, cinemas antigos da cidade e competições de moutain bike enriqueceram em muito a minha vida.
Enfim, espero que o 3º ano seja melhor. Sem dúvida, teremos mais trabalhos e mais desafios nas disciplinas práticas. E é isso que eu quero. Mas, o ano que acabou foi só o letivo. Ainda temos algumas cervejas pra tomar, assuntos pra debater. Só não vale sumir e aparecer apenas em fevereiro.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Questão de bom senso

O assunto é polêmico e sempre causa controvérsias. Agora, veio à tona, com a divulgação do requerimento que está sendo preparado pelos clubes campeões nacionais entre 1959 e 1970, solicitando à CBF que seus títulos sejam reconhecidos como campeonatos brasileiros. O grupo, capitaneado pelo Santos Futebol Clube, já obteve a chancela da Fifa (em seu site, o Peixe aparece com oito títulos brasileiros).
Como em tudo no futebol, este tema é discutido (quase sempre) sob o calor da emoção. Os torcedores dos times envolvidos – além do Santos, Palmeiras, Cruzeiro, Botafogo, Fluminense e Bahia – aprovam totalmente a idéia. Enquanto os outros, simplesmente a ignoram. Tentarei ser racional então.
Devido às proporções continentais do país, sempre foi difícil organizar um torneio realmente nacional. Houve tentativas, mas, não vingaram. Torneios interestaduais foram realizados (O Rio-São Paulo foi o mais conhecido), mas, obviamente, nenhum deles era representativo. Este regionalismo ainda persistiu até meados de 1950, quando a CBD se viu obrigada pela Conmebol a ter um clube campeão que representasse o Brasil na recém criada Taça Libertadores da América, nos moldes da Copa dos Campeões da Europa (que começou em 1956).
Surge, então, a Taça Brasil, em 1959, com 16 clubes de 16 estados diferentes, que reuniu os campeões estaduais do ano, em jogos eliminatórios de ida e volta (o famoso mata-mata). Teve dez edições e durou até 1968. Antes da sua extinção, foi criado o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, em 1967. Era um Rio-São Paulo acrescido de clubes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. Em 1970, passou a se chamar Taça de Prata. Foram estes torneios que abriram caminho para o bi-campeonato da Libertadores pelo Santos e o os dois vice-campeonatos do Palmeiras.
Em 1971, foi criado o Campeonato Brasileiro como conhecemos, repleto de interesses políticos e fórmulas mirabolantes. O número de participantes foi crescendo a cada ano, chegando aos absurdos 94 clubes na edição de 1979. A verdade é que a CBF sempre ignorou o reconhecimento dos títulos da Taça Brasil e do Robertão. Na minha opinião, foram torneios absolutamente representativos. Tinham nomes, fórmulas de disputa e número de participantes diferentes, como os demais campeonatos que vieram depois.
Se uma luz de serenidade e bom senso cair sobre os dirigentes da CBF e este requerimento for aceito, haverão alguns protestos, principalmente de São Paulo e Flamengo, que verão sua supremacia (pós 1971) chegar ao fim, oficialmente. Com cinco títulos cada, estão atrás de Santos e Palmeiras, com oito troféus. Palmeiras e Santos, de duelos memoráveis na década de 1960 – o Verdão era o único que encarava, de igual para igual, o fantástico time de Pelé -, que escreveram um novo capítulo de suas brilhantes histórias neste domingo. Um duelo entre os maiores campeões brasileiros.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Tempos de crise

Atualmente, querem nos empurrar a idéia de um mundo virtual, de relações virtuais. De que nada é muito palpável, real. De que a vida sem Internet, celulares, mp3, fotos digitais e globalização era muito diferente. Claro que houve mudanças. Hoje, as coisas são mais ágeis. Somos mais vigiados também. Mas o bate papo no boteco continua firme. O mundo a nossa volta continua real: os abraços, os beijos, as discussões.

O que mudou mesmo foi a crença no futuro. Da humanidade e das pessoas. Vivemos atolados em um ceticismo assustador. Afinal, todas as tentativas de revolução para mudar os rumos da humanidade fracassaram, vítimas dos sentimentos humanos mais mesquinhos.

Muitos acreditaram que, com o fim comunismo e com a hegemonia do capitalismo selvagem americano, o mundo viveria uma nova era de paz e igualdade. Não preciso ser especialista para comprovar que o projeto de globalização e hipercapitalismo somente piorou a situação dos mais pobres. Será que a ideologia morreu? Meu amigo Beto me disse que ando muito desesperançoso. Talvez a idade tenha me deixado tão descrente. Me veio à mente a canção do Cazuza.

Vejo, agora, o provável colapso do deste capitalismo – se bem que ainda é cedo para afirmar isso. Parece que todos nós sofreremos as conseqüências reais da ganância de uns poucos manipuladores do chamado dinheiro “virtual”. Porém, em tempos de crise, as pessoas tornam-se mais solidárias e humanas. Talvez estejamos precisando de mais esta.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A VOLTA DO VINIL?

Manchete de uma das reportagens de capa do Jornal da Tarde de ontem: “Chega de saudade! O vinil está voltando!” Vejam só: muitos artistas estão lançando trabalhos em discos de vinil e os fabricantes estão recrutando funcionários para atender a demanda. Será o retorno triunfal de um velho companheiro de baladas?

Para quem foi comprador e apreciador desses discos (tenho uns 200 mais ou menos), não deixa de ser surpresa saber que o velho vinil está ganhando força de novo. Tudo bem, é difícil acreditar que na era do mp3 e das mídias digitais ele volte a ser tão popular quanto antes. Mas, para quem o considerava moribundo, não deixa de ser uma doce vingança.

Tenho muitos amigos que acreditam que a sua qualidade sonora é melhor que a dos cd’s. Não importa. Quando comprávamos um LP antigamente adquiríamos, além da música, todo aquele ritual de abrir o encarte, conferir os créditos e a cara dos músicos - a única chance de vê-los antes dos vídeo clipes.

Era uma outra forma de se relacionar com a música. Discos piratas eram aqueles feitos a partir de gravações em shows sem a autorização do artista e vendidos como oficiais. Não existiam cópias, só se compravam os originais. E eram baratos! Minha coleção poderia ter sido até maior...

Então, vamos viajar um pouco. E se os discos de vinil voltassem a ser a única forma de se obter música? Como seria? Os camelôs morreriam de fome: não há como piratear os LP’s. Nada de tocadores de mp3 ou gravações caseiras no computador. Pra levar alguns “disquinhos” pra ouvir na casa do amigo, leve uma sacola. E bem grande! E o melhor (ou pior): pra curtir aquele sonzão bacana no carro, só gravando em uma fita cassete!

É galera. Ainda gosto muito de ouvir meus discos antigos. Mas, acho que, no máximo, serão mais uma alternativa de mídia para os mais apaixonados. Ser saudosista aos 40 não é nenhum demérito pra ninguém. Mas, tudo tem limites. O passado foi muito bom daquele jeito e não volta mais. Que venha o presente nos mostrar o futuro então.

sábado, 20 de setembro de 2008

Crônica

DE SUPERMAN A MAZZAROPI

DE SUPERMAN A MAZZAROPI
Foi no Cine Marabá, na avenida Ipiranga, que vi o primeiro filme da minha vida, ainda na infância: Superman, aquele com Marlon Brando e Christopher Reeve, o pioneiro dos blockbusters de super-heróis que povoam as salas de hoje. Foi uma festa. O cinema lotado, com quase mil pessoas vibrando com as façanhas do homem de aço. Tudo era novidade para mim; o lanterninha que nos guiava no escuro, o barulho do projetor e a sensação única de ser absorvido por aquela tela gigantesca. Foi inesquecível. Minha segunda experiência - esta nem tão marcante assim - foi com outro herói, este genuinamente nacional; Mazzaropi. Estava com meu tio Zé e mais dois primos, no Cine Estoril, em Osasco, outra referência para mim. Nem me recordo mais o nome do filme. Lembro-me somente que demos pouquíssimas gargalhadas. Acho que o ingênuo humor “mazzaropiano” já estava em decadência.

A partir daí, então, virei um freqüentador assíduo. Nasceu ali, uma relação repleta de namoros, amassos e alguns momentos solitários. Confesso que o excesso de testosterona me fez assistir a algumas pornochanchadas - que monopolizavam o mercado nacional na época, com suas produções baratas e, na maioria das vezes, ruim de doer. Mas, sobrevivi a elas.

Conheci quase todos os cinemas do centrão. E eram muitos. Tinha o Marrocos, com sua imponente fachada de mármore; o Olido, no largo do Paissandu; as duas colossais salas do Cine Ipiranga; o inesquecível Cinespacial, com três telas exibindo o mesmo filme simultaneamente (como bem lembrou meu amigo Marcos Forte). Era fantástico! E, claro, o incomparável Comodoro, na avenida São João, com seu som “stereo surround” e a tela fora do comum, em 70mm. Foi lá que tive um dos grandes prazeres da minha vida quando assisti Pink Floyd, The Wall. A união da grandiosa música do grupo com os delírios visuais do diretor, mais a qualidade sonora da sala, fizeram a cabeça da minha geração. Uma geração que viveu intensamente todas as coisas boas que o centro proporcionava. Além dos cinemas, havia os bares, as lojas, enfim, toda aquela efervescência.

Tudo isso não existe mais. O centro perdeu seu charme. Dos cinemas da região, alguns se tornaram estacionamentos. Outros, igrejas evangélicas. Sem contar os bingos. Os que ficaram exibem apenas filmes pornográficos ou shows de strip-tease e sexo explícito. O padrão Multiplex e Cinemark multiplicou-se pelos shoppings e virou clichê. Até o meu velho Marabá não resistiu: vão dividi-lo em cinco salas pequenas neste conceito americanizado. As produções, por sua vez, ficaram cada vez mais infantis, aceleradas e idiotas. Sinal dos tempos.

A invenção do vídeo cassete, do DVD, a pirataria, tudo isso mudou a relação do cinema com o público. Antes, um filme podia ficar em cartaz por mais de um ano. Hoje, muitos preferem ver os filmes enclausurados em casa, na telinha da televisão. E a relação do cinema com o centro da cidade, essa, talvez nunca mais seja a mesma.

domingo, 14 de setembro de 2008

1º DE JULHO

Quando eu morri, aos oito anos
Descobri que para ser imortal
Não é preciso vencer no final
Nenhum bicho de sete cabeças

Nem tampouco construir
Luxuosos palácios reluzentes
Que servem apenas pra que toda gente
Enxergue o que as lendas deixaram impressas

Aprendi com meu primeiro professor
Que a intensidade das paixões que cativamos
É a exata medida do quanto precisamos
Para nos mantermos vivos após uma partida

Porque o amor incondicional
É mais forte do que qualquer tempo
Atravessa montanhas e vales como o vento
Impregnando-se em cada átomo que nos dá vida

Aprendi com meu grande amigo
Que estar distante de alguém
Não significa morrer também
Mesmo que a memória perca a intensidade

Porque o que fica no coração
De forma alguma se apaga
Pois, na verdade, é ela quem afaga
E transforma a dor em saudade

Poesia dedicada à meu pai...

sábado, 30 de agosto de 2008

Falhas Estruturais

Após a derrota para a seleção Argentina, nas semifinais do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Pequim, me fiz a seguinte pergunta: porque os jogadores argentinos amadurecem mais rapidamente que os brasileiros? Será que as categorias de base dos times de lá são mais eficientes que as nossas?

Vejamos os fatos: Sérgio Agüero estreou no time principal do Independiente aos 15 anos. Hoje, com 19, é uma das principais promessas do futebol mundial, eleito o melhor jogador do último mundial sub-20 e principal jogador do Atlético de Madrid; Lionel Messi, aos 20 anos, é um dos maiores craques atuais, titular absoluto do Barcelona e da seleção de seu país, só para citar os mais conhecidos.

Robinho explodiu para o futebol em 2002, e mesmo hoje, aos 23, ainda não alcançou um estágio que o credita a ser um dos grandes jogadores da atualidade. Lulinha, atacante corintiano, 18, há pouco tempo era tido como maior promessa do clube, com o valor de sua multa contratual estipulada em U$ 50 milhões. Hoje, após vários jogos pelo time principal, é vaiado pela torcida, marcou poucos gols e sua qualidade é questionada.

Alexandre Pato, 18, é tratado como o novo messias do futebol brasileiro. É um jogador predestinado a marcar gols importantes, mas, até agora, não mostrou nada de excepcional. No mesmo mundial sub-20 onde Agüero brilhou, Pato foi uma decepção atuando ao lado de jogadores da sua idade.

Este é um problema estrutural do nosso futebol. Existem falhas nas categorias de base dos clubes brasileiros. Nossos futuros craques chegam aos times principais sem saber os principais fundamentos do futebol. Sabem driblar, claro, pois é o nosso diferencial, o que nos tornou cinco vezes campeões mundiais.

Mas, no futebol atual, o drible tem de ser mais econômico e objetivo. Fundamentos essenciais como passes e chutes ao gol, não são trabalhados como deveriam. Esqueceram as lições que Pelé nos deixou: simplicidade nos dribles, objetividade total e competência em todos os fundamentos. Não estou querendo que sejam novos pelés, afinal, o rei fazia tudo isso próximo da perfeição. Mas, é “o” modelo a ser copiado.

Vários de nossos jogadores só aprendem a jogar com mais objetividade depois que vão para a Europa. Não deveria ser assim. Imagine se fossem para o velho continente melhor preparados. Chegariam aos seus clubes com maiores chances de mostrar a essência do futebol brasileiro.

Kaká é o exemplo clássico. Foi somente após sua chegada ao Milan que ele deslanchou e tornou-se o melhor jogador do mundo. Com justiça, diga-se de passagem. Ninguém em sua época de São Paulo poderia imaginar que chegaria tão longe. Ou seja, falta visão às pessoas ligadas ao futebol de base e também aos técnicos dos times principais.

Não tenho comigo a solução mágica para que estes problemas se resolvam da noite para o dia, nem a pretensão de ser o dono da verdade. Mas, é assim que eu vejo a realidade futebolística por aqui. A questão agora é saber se as pessoas responsáveis por estes garotos enxergam tudo isso. Se não, tudo ficará como está e, daqui a alguns anos, nossos vizinhos (bons de bola também) alcançarão o topo do futebol com mais qualidade e quantidade do que nós.

domingo, 24 de agosto de 2008

Nossa dura realidade

Acabaram os Jogos Olímpicos de Pequim. Provavelmente, muitos jornais e telejornais abrirão com manchetes parecidas com esta: “Brasil tem o melhor desempenho da história”. Se analisarmos os números friamente, o desempenho brasileiro foi realmente bom. Afinal, nossos atletas ganharam mais medalhas no total, mas com um ouro a menos do que em Atenas, em 2004. Porém, a sensação de frustração ficou no ar. Alguns dos brasileiros mais cotados a ganhar medalhas, decepcionaram no momento crucial. Parece que não estavam psicologicamente preparados para uma pressão deste tamanho. Retornamos, então, à nossa dura realidade.

Claro que as Olimpíadas são um grande espetáculo e que o esporte ajuda na inclusão das pessoas. Mas, não podemos pensar em um desenvolvimento do país levando-se em conta apenas nossa 23ª colocação no quadro de medalhas. Ficamos atrás dos subdesenvolvidos Jamaica, Etiópia e Quênia. Em contrapartida, ficamos à frente dos altamente ricos Suécia, Nova Zelândia e Dinamarca. Há muito mais a ser feito. Estamos na 70ª posição no IDH, ranking de qualidade de vida, que analisa educação, saúde e renda. Atrás, na América Latina, de Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica, Cuba etc. Também nunca vencemos um prêmio Nobel, que premia a excelência tecnológica e de pesquisas cientificas. Retornamos à nossa dura realidade.

Não estou dizendo que não devemos investir pesadamente no esporte. Apenas acredito que isto não deve tornar-se uma obsessão, visando apenas a possível realização de uma Olimpíada no Rio de Janeiro, em 2016. A prática esportiva deve fazer parte dos currículos escolares - com mais seriedade - desde a infância até a universidade. Isso traria benefícios enormes. Daria a algumas crianças a oportunidade de uma carreira interessante. Se isso não acontecer, pelo menos terão uma qualidade de vida melhor. Porém, estamos muito longe disso. Muitos talentos se perdem por aí por falta de infra-estrutura. Esta é a nossa dura realidade.

César Cielo, Maureen Maggi e as meninas do vôlei estão sendo tratados como heróis. Em um país tão carente de bons exemplos, é perfeitamente compreensível. A confiança demonstrada por Cielo antes da prova que o consagrou foi impressionante. Maureen superou vários problemas, como uma punição injusta por doping. A seleção feminina de vôlei conseguiu vencer o forte trauma da derrota nas semifinais em Atenas. O esporte é uma metáfora da vida; as derrotas não devem nos derrubar, e sim, nos tornar mais fortes. Precisamos deixar nosso “complexo de vira-latas” de lado e começar a mostrar que somos capazes de resolver nossas deficiências. Promover a igualdade social e racial, acabar com o analfabetismo e a mortalidade infantil, entre outras mazelas. Assim, mudaremos esta dura realidade.

sábado, 16 de agosto de 2008

Democracia

Muitos lutaram e morreram por ela. Também muitos crimes foram cometidos em seu nome. É o governo do povo, pelo povo, para o povo. Assim me ensinaram na escola, lá pelos anos setenta. Ironicamente, naquela época, a ditadura estava firme e forte. Quando penso em democracia, duas palavras me vêm à mente; representatividade e participação. Na teoria, é o regime em que o povo é plenamente representado. Pode ser que seja assim em alguns países. Porém, não vejo isso por aqui. Vivemos uma democracia de papel. Não participamos inteiramente dela e nela não somos representados igualmente. Não vivemos uma democracia racial. Muito menos social. O voto - que é um direito - ainda é obrigatório. O alistamento militar também. Sem contar que boa parte dos nossos meios de comunicação são tendenciosos, representam outros interesses.

Em época de eleições, o sentimento democrático vem à tona, aparece em toda parte e nos dá a sensação de que somos realmente participativos. Afinal, quando votamos estamos vivenciando o momento máximo de qualquer democracia. O problema é que despertamos politicamente apenas de dois em dois anos, como se nossa participação se resumisse somente nisso. O resultado está aí; governos corruptos e direitos básicos desrespeitados. Ignoramos que fazemos política o tempo todo: em família, na faculdade, no trabalho. Então, se participamos ativamente nestes núcleos, porque não para reivindicar algo para o nosso bairro, cidade?

Até a década de sessenta, os estudantes e a sociedade em geral participavam muito mais das decisões políticas (grandes e pequenas) do país do que hoje. Depois de tantos anos sem liberdade de expressão, as gerações seguintes tornaram-se – com a ajuda da mídia – mais alienadas e individualistas. O pensamento dominante é que devemos nos comportar como cordeiros. Nada de passeatas e panelaços. É coisa de baderneiros. Tudo bem, os tempos são outros. Menos românticos e idealistas. Afinal, os empregos tornaram-se mais escassos e o medo de perdê-los, cada vez maior. Mas, não é por isso que vamos nos comportar como se não houvesse mais nada além do nosso próprio umbigo. Não sinto em nós, paulistanos, uma “paulistaneidade”. Ou seja, falta um sentimento de amor pela cidade, de respeito aos seus espaços públicos e a noção exata de ela é de todos, não só de um pequeno grupo ou elite.

Agora, temos uma nova chance de elegermos um administrador para nossa imensa cidade, com seus problemas e desigualdades em igual proporção. E também, novos representantes na Câmara Municipal (virou piada, mas é isso que eles são). Devemos participar, exercer nosso direito e eleger quem achamos que será o melhor para estes cargos. Porém, nossa participação não acaba aí. De várias formas podemos cobrar o que nos é de direito. Uma delas é esta: escrevendo o que pensamos, falando com as pessoas, tentando trazer a discussão política para o nosso meio. E, enquanto não vamos para as ruas, o blog é uma das ferramentas mais democráticas que temos.